.:cadernos grampeados:.
   PHILIP GLASS É A MINHA MADONNA

Diante de toda a confusão para se conseguir um ingresso para assistir Madonna num estádio de futebol, me sinto aliviado por ser fã de Philip Glass.

Glass esteve aqui em Salvador ontem, para mais uma palestra do Fronteiras do Pensamento.

Esse projeto é interessante mais por um caráter fetichista do que o conteúdo do que está sendo exposto nas palestras em si. Vieram Camile Paglia, Luc Ferry, Charles Melman e recentemente Wim Wenders. Mas não há exatamente uma linha de pensamento ou uma temática que pudesse ser compreendida.

O que faz o sucesso do projeto é o fetiche (meio provinciano) de ver ao vivo essas celebridades do meio intelectual internacional.

Eu sou fã de Philip Glass. Se ele viesse fazer desfile de escola de samba, eu ia ver.

A presença de um piano no lado esquerdo do palco já me deixou bastante animado. Ao fundo, um telão para a projeção de imagens e vídeo.

Glass foi apresentado numa introdução impessoal - cheia de terminologia técnica de música - pelo pianista Ricardo Castro, atual diretor da Orquestra Sinfônica da Bahia. A introdução de Ricardo Castro pareceu distante, como se ele não tivesse nenhuma intimidade com a música de Glass. Ele buscou referências herméticas demais para o grande público. Mas me deu uma informação interessante: Philip Glass foi eleito, junto com Pierre Boulez, um dos músicos mais importantes e influentes da música erudita no século 20, pela BBC.

Glass entrou no palco com seu jeitão meio jeca de sempre. Uma calça surrada, uma camisa social e um blazer cinza. Ele parecia abatido, cansado, envelhecido demais para os seus 71 anos de idade.

Atravessou o palco e se sentou numa poltrona destinada às perguntas, no final da palestra. Ignorou o púlpito. Pegou um microfone sem fio, abriu um caderno com apontamentos e disse o que ia fazer ali. Sua palestra seria dividida em três partes: platéias; colaborações; intérprete. E ele daria exemplos, tocando piano, porque "Música é pra se ouvir, não pra se falar sobre". Ele avisou que tocaria então dois movimentos de uma obra chamada "Metamorphosis", que teria a duração de 6 minutos cada e pediu para que as pessoas só aplaudissem depois do final das duas.

Então ele foi direto para o piano e tocou. E foi muito engraçado notar que ele ajeitava a franja do cabelo, cada vez que ficava com a mão direita livre, principalmente na primeira peça, que possue vários trechos escritos somente para a mão esquerda.

Eu conheço "Metamorphosis", tenho umas três ou quatro gravações da obra. Achei que ele adiantou um pouco o andamento. Mas foi lindo. Ao final, o público aplaudiu muito calorosamente.

Então ele falou sobre as primeiras experiências que ele teve com seu conjunto, mostrando sua música para a platéia estarrecida no final dos anos 60, quando ele tinha por meta explorar os limites que o público podia suportar a duração de suas obras até então. Nesta época, ele compunha peças que duravam 45 minutos, 60 minutos, de música repetitiva e climática. Até que foi convidado por Bob Wilson a compor uma ópera que teria a duração de mais de 4 horas ininterruptas - o que, para Bob Wilson, era uma peça pequena, comparada às experiências de peças com duração de 14 ou 16 horas que ele já havia feito anteriormente.

Assim foi criada Einstein on the beach, que estreou em Nova York, em 1976.

Aí, Glass começa a falar do segundo tópico: colaboração entre artistas de áreas diferentes. Mas antes, ele vai ao piano e toca uma das Knee plays (pequenas articulações entre os atos da ópera), enquanto são mostradas imagens da montagem original de 76 no telão do fundo.

Glass falou da colaboração de dois artistas como o músico John Cage e o coreógrafo Merce Cunningham, quando eles estavam criando uma obra juntos mas um só conheceu o trabalho que o outro estava fazendo na hora da estréia. Cage compôs a música sem conhecer a coreografia de Cunningham e vice-versa.

Então falou de sua colaboração com Bob Wilson, com o cineasta Godfrey Reggio e outros colaboradores. E falou dos métodos de trabalho diferentes com cada um deles.

Aí, mostrou um curta-metragem chamado Eveidence, que Reggio criou a partir de uma música que Glass havia composto para o filme Koyaanisqatsi, mas havia sido cortada da versão final do filme. Anos depois, Reggio fez um curta e aproveitou a música. O filme é surpreendente. Tem no YouTube http://www.youtube.com/watch?v=vuI_nCADnW0 

Depois ele falou sobre suas apresentações em público com Allen Guinsberg, com Hydrogen jukebox, que eles colaboraram. E tocou Wichita Vortex Sutra, com a voz de Guinsberg gravada. Emocionante.

Depois abriram para perguntas. Minha pergunta foi sobre a ópera O corvo branco, escrita em português e jamais gravada em disco. Há planos para a gravação.

Ele respondeu algumas outras perguntas.

Depois do fim da palestra, fui ao camarim e pedi para ele autografar alguns dos CDs que eu tinha levado. E ainda tirei uma foto ao lado do ídolo.

Philip Glass é a minha Madonna.



Escrito por Celso Jr. às 12h21
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   SEMANA PASSADA. SÁBADO, DOMINGO E SEGUNDA.

Semana passada foi dedicada às atividades culturais. Durante a semana teve o encontro com Wim Wenders e com José Padilha, depois o encontro com a surpreendente e extraordinária Orlan. Mas teve mais.

SÁBADO - Fui assistir ao espetáculo teatral Pessoas invisíveis, do grupo Armazém. Até hoje não sei direito se o grupo é carioca, paulista ou mineiro. Acho que a sede deles é na Fundição Progesso, no Rio, mas os atores têm sotaques misturados. Enfim.

Eu já havia assistido Toda nudez será castigada, de Nélson Rodrigues, no CCBB carioca. Tinha sido uma experiência bem bacana. Gosto principalmente das atrizes.

Desta vez, o espetáculo apresentado foi baseado nos quadrinhos de Will Eisner. Mais uma vez as atrizes se destacam. Pequenas histórias entrelaçadas. Fantasmas rondando um velho prédio onde moram pessoas entristecidas. Historinhas pequenas de pessoas invisíveis. O músico que perde a esposa. O zelador que se envolve com a menina falsa-ingênua. O desencontro do casal que decide marcar um encontro, mas esquecem de dizer de que lado da rua era para esperar. Gente comum. Cenário lindo.

Tudo muito triste.

DOMINGO - Foi dia de assistir ao espetáculo de comemoração dos 20 anos do Balé Folclórico da Bahia.

A primeira parte do programa era Sagração da primavera, coreografia de Zebrinha para o clássico moderno de Stravinsky. Dançarinos negros e mulatos vestidos com sungas e tops cor da pele tentavam desesperadamente seguir o ritmo da música de Stravinsky, numa coreografia tecnicamente difícil e muito atlética.

Zebrinha decidiu ignorar o libreto da obra de Stravinsky que narra claramente uma pequena história primitiva pagã. Mas Zebrinha não nos ofereceu a história, nenhuma história. A música - apesar de muito cortada - continua impactante. Os dançarinos pareciam pouco à vontade no palco. Eles estavam dançando dança "séria", mas não pareciam ter a menor idéia do significado de cada movimento que faziam no palco. Acabou parecendo que eles estava gastando muita energia para pouco resultado.

Uma pena. Porque na segunda parte do programa, as coreografias já conhecidas de representações de orixás, puxada de rede e capoeira mostram a energia do que o grupo pode realizar. A resposta do público foi imediata. Uma injeção de adrenalina e emoção.

Depois do espetáculo, um longo e lamentoso discurso de Vavá, diretor do grupo.

Na média, deu pra passar.

SEGUNDA - Recebi um telefonema com um convite para assistir à pré-estréia do filme Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. Justamente o filme que deu o prêmio de melhor atriz a Sandra Corvelloni, no festival de Cannes deste ano.

A ante-sala do multiplex Iguatemi estava lotada de gente ansiosa por ver o filme.

Antes da projeção começar, um pequeno discurso de Walter Salles. Agradecimentos. E a informação de que aquela seria a primeira exibição do filme no Brasil. É uma honra e um privilégio.

O filme narra as histórias de uma família que vive na periferia de São Paulo. Uma mulher - grávida - e seus quatro filhos tentam sobreviver na grande cidade.

Cada pequena história vai acrescentando humanidade e detalhes à vida de cada um daqueles personagens. Poesia sobre pequenas coisas. Pequenas vidas.

Aos poucos, vemos se desenrolar na tela cada personagem cometendo uma pequena falha de caráter. Pequenos erros que geram outros pequenos erros. O filme vai caminhando para algum desenlace trágico. Algo de muito ruim pode acontecer a qualquer momento.

E a vida passa.

Saí do cinema com o coração apertado. A direção não permite que se faça a catarse. E nos deixa com o coração apertado. É um lindo filme.

Na platéia do cinema, sentadas atrás de mim, umas moças riam e falavam o tempo todo. Chegou a incomodar as pessoas ao redor. É a falta de educação que se é obrigado a conviver. E dá raiva imaginar que elas sequer pagaram ingresso para estarem ali. Pérolas às porcas.




Escrito por Celso Jr. às 18h49
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   O ESTRANHO MUNDO DE ORLAN

Fui assistir à palestra de ORLAN, no MAM-Salvador.

ORLAN é uma artista. Ela nasceu na França há uns sessenta anos. E a arte dela propõe questionamentos sobre o corpo, a identidade, a representação. E ela faz isso através de instalações, hibridizações gráficas digitais (misturando imagens de seu rosto com o rosto de pessoas de outras etnias) e também performances cirúrgicas que resultam em body modification.

ORLAN tem atualmente duas próteses nas têmporas, como dois calombos.

ORLAN retirou um pedaço de seu abdome e vende as finas fatias de sua própria carne imprensada em placas de resina como relíquia. Como ex-voto.

ORLAN subverte a noção metafórica de "vender o corpo" das prostitutas. Ela literalmente vende fragmentos de seu corpo.

Não há diferença entre seu corpo e sua obra. Ela É a própria obra. E não permite que as pessoas a fotografem. Ela rompeu os limites da metáfora. Ela não representa nada. Ela é a própria representação.

Durante a palestra, ela se mostrou inteligente, bem humorada e simpática. Seu discurso bem estruturado e altamente referenciado é uma prova de que ela não é uma louca varrida. Ou pelo menos é uma louca varrida bem fundamentada.

A (des)organização do MAM se mostrou em todo seu esplendor. Havia um esquema de tradução simultânea para o público (ORLAN ministrou a palestra em francês). Na platéia ávida, cerca de 300 pessoas. Porém, só havia 150 fones de ouvido para a transmissão simultânea da tradução. Depois de muita confusão, este problema foi resolvido com a opção de uma tradução consecutiva (com uma tradutora sofrível e insegura) O que prejudicou - e muito - o andamento da palestra.

Além disso, a demora interminável para a entrada na sala causou um atraso de quase quarenta minutos.

Muita desorganização. Improvisação. Falta de planejamento.

Mas valeu pela para conhecer a vida, a obra e o corpo desta mulher extraordinária.

Se tiver curiosidade - e estômago - é só acessar o site dela. http://www.orlan.net/  



Escrito por Celso Jr. às 12h05
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   WENDERS E PADILHA

Pouco mais da metade da platéia de mil e seiscentos lugares estava ocupada, quando começou a apresentação feita pelo médico André Trajano.

Trajano é o proprietário dos cinemas Salas de Arte de Salvador. Trajano tentou ser espirituoso, tentou emplacar umas piadas e dispensou a segurança do púlpito, se arriscando a ficar solto no palcão do TCA, com um microfone de lapela. Tiro pela culatra. Ele fez propaganda de suas salas de cinema, falou muito e tentou ser simpático.

Enfim, Padilha e Wenders entraram no palco.

Wenders entra no palco vestindo uma calça jeans surrada, uma camisa social cinza escura e um sobretudo. Nas costas, uma mochila. Cabelos grisalhos compridos. Óculos. Atravessa o palco e vai se sentar numa das poltronas do lado esquerdo do palco, junto com Trajano.

Padilha, usando um boné que impedia que víssemos seu rosto, começou a falar sobre seu método de criação de histórias. Falou da importância da construção de uma dramaturgia, para o cinema, não importando se o que está sendo realizado é uma obra de ficção ou um documentário. Falou da importância da Teoria dos jogos para a sua criação. E nos informou o quanto a Teoria dos jogos é responsável pela opção de, em seus filmes, evitar uma visão moral das personagens. Expor as regras do jogo, expor as peças que irão jogar e conduzir o jogo como um árbitro, cuja função ali é de observar se as regras estão sendo seguidas.

A Teoria dos jogos é um ramo da matemática aplicada. Na matemática nada é moral. Não há uma ética. As coisas são o que são e se apresentam de acordo com determinadas regras.

Então, Padilha apresentou trechos de Ônibus 174 e de Tropa de elite. Tentando demonstrar suas idéias e, citando Brecht, tentou refutar as acusações de que ele seria ideologicamente de esquerda ou de direita. A visão que Padilha tem de Brecht é superficial, mas demonstra boa vontade em aprender.

No fim de sua palestra, eu já estava simpatizando com ele e com suas idéias. Os filmes pareceram melhores depois que eu ouvi o que ele tinha a dizer. E isso foi bom.

Chegou a hora de Wenders falar. Ele trazia um notebook da Apple em sua mochila. Abriu o notebook sobre o púlpito e comjeçou sua longa e bem conduzida palestra sobre a necessidade de um cineasta (de filmes documentários ou de ficção) de criar suas obras falando de um lugar. Os lugares falam por si.

Ele falou de cinema comercial americano. E o quanto esses filmes poderiam se passar em qualquer lugar. Que muito do cinemão comercial não possui identidade. Ou seja, ignora os sotaques e as características dos lugares.

Então ele falou com muito carinho de Central do Brasil. Lembrei da sensação impactante que eu tive ao assistir Central pela primeira vez, logo na abertura do filme, as sonoridades captadas da estação central de trem de subúrbio. Aquela sonoridade me "puxou" pra dentro do filme imediatamente. Me conduziu para aquele lugar.

Wenders falou da sensação de vergonha da geração dele por ter nascido numa Alemanha pós-guerra. Falou de seus primeiros filmes. E falou com especial cuidado de Asas do desejo (cujo título original, lembrou Fabiana Pimentel, O céu sobre Berlim, faz muito mais sentido para compreender o que ele diz). Segundo ele, este é um filme sobre a cidade de Berlim. E que ele teve a idéia de fazer o filme, ao circular pela cidade e perceber que havia muitos anjos espalhados. Monumentos, estátuas, decorações de casas e prédios públicos e privados.

Wenders falou sobre cinema americano. Disse que ia assistir aos filmes comerciais, Batman, Harry Potter e que esses filmes servem para divertimento, e só. E que às vezes todos nós precisamos de filmes assim, apenas para divertir. Mas que às vezes é necessário um filme que nos alimente a alma.

Então, ele nos mostrou dois novos filmes seus. Dois documentários que se passam numa região remota do Congo.

O primeiro é bem curto (uns 2 minutos e meio) e se chama War in peace (Guerra em tempos de paz) e mostra os homens de um vilarejo remoto do Congo que, após 50 anos de guerras violentas, passam as tardes diante de uma tela de cinema improvisado assistindo a filmes de guerra violentos. Após muitos anos de violência e guerra, eles só se identificam com aquele tipo de filme.

O segundo filme é lindíssimo e tristíssimo. O título é Invisible people (Pessoas invisíveis) e tem 20 minutos de duração. Mulheres do Congo narram para a câmera suas terríveis experiências de estupro e abusos, durante os anos de guerra civil em sua região. À medida em que narram suas pequenas histórias de dor e violência, as imagens dessas mulheres vão sumindo da tela. Ficam apenas as suas vozes. Elas se tornam invisíveis.

Um aperto no coração. São várias histórias, contadas por várias mulheres. A mesma história. Estupros coletivos. Brutalidade. Seqüelas trágicas, abortos, esterilidade. Mulheres invisíveis.

Depois de alguns minutos de projeção, o DVD deu algum problema e o filme foi interrimpido. Wenders elegantemente narrou os últimos momentos de filme e falou das condições de filmagem e das estratégias que eles tiveram de usar para conseguir os relatos.

Triste e belo.

A noite terminou com perguntas a ele e a Padilha.

Perguntas polêmicas a Padilha, que se saiu bem humoradamente das provocações.

Uma pergunta incompreensível a Wenders que tentou responder e, no meio da resposta, disse: "eu sei que não estou respondendo à pergunta, mas é que eu não entendi mesmo".

Risadas e aplausos.

Trajano encerrou a noite tentando fazer mais algum comentário engraçado, mas eu já estava de saída, nem ouvi.

Acabei comendo temaki, no rio vermelho, na companhia de Amadeu, Fabiana, Léo e Adriana. Muito divertido.


O que está bombando no iPod: Philip Glass - Naqoyqatsi.

 



Escrito por Celso Jr. às 11h20
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   BOSSA NOVA E WIM WENDERS

Nesses dias de chuva de fim de inverno baiano, tenho ouvido bossa-nova. João Gilberto, Gal Costa (Cantar) essas coisas. Chove.

Tomara que alague a Centenário. É detestável a ação eleitoreira barata do atual prefeito de Salvador de encher a cidade de obras apressadas e sem um planejamento direito. A Centenário está toda em obras. Uma mega-obra. Segundo a propaganda eleitoral, isso vai acabar com os constantes alagamentos. Mas, quem vai pagar a conta? Desespero desse imbecil.

Mas amanhã tem Wim Wenders no Fronteiras do Pensamento. Quero ouvir este homem falar. Pra me inspirar.

E mês que vem tem Philip Glass tocando piano no TCA, no mesmo projeto Fronteiras do Pensamento.

Salvador tá massa.


Notinha sobre o início da propaganda eleitoral na TV. Hoje o candidato ACM Neto veio dizer: "Eu sou um prefeito à altura de Salvador".

Piada pronta. Ele tem no máximo, 1,60m de altura.



Escrito por Celso Jr. às 00h28
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   SOBRE A GRANDE DIFICULDADE DE ESCREVER AQUI

A impressão que me dá é que escrever aqui tem sido cada vez mais difícil.

Escrever os diários de viagens foi fácil. Tem sido fácil nestes anos todos. Escrevo aqui desde 2004. Isso é bastante tempo. Segundo a editora do extinto site "Bem resolvida", meu blog tem um bom material crítico. Não sei exatamente o que ela quis dizer, mas achei que era um elogio.

Henrique Jesuíno, meu amigo querido, e uma das pessoas cuja opinião e referências mais me influenciaram, me enviou certa vez um e-mail falando que ele carecia da compreensão dos motivos da criação e manutenção de um blog pessoal.

Na verdade, eu o compreendo hoje. Naquela época, os blogs ainda não eram esse instrumento poderoso de jornalismo rápido e independente. Os blogs ainda estavam engatinhando. Havia poucos blogueiros "profissionais".

Hoje até Caetano Veloso tem o blog dele. Gerald Thomas foi um dos primeiros que eu li. Primeiros entre as celebridades. Eu li também o blog de Leila Pinheiro (encantada com o nascimento dos filhotes de sua poodle).

Hoje eu leio os blogs de amigos próximos. E leio a poeta pisciana Ana Peluso. Porque ela é diferente. Do resto. Tenho lido o moleskine de Renata. Tenho me divertido.

Continuo sem ver os pingüins que desembarcam nas praias da Bahia.

Pra mim, é sinal do fim do mundo. Todas as informações científicas que deram até agora para explicar o surgimento dos pingüins nas praias da Bahia não me convencem. Continuo achando que eles simplesmente mudaram a rota de migração. E que a partir de agora, todos os anos teremos pingüins na Bahia. O tempo dirá.

Pingüim não é metáfora de nada.

 



Escrito por Celso Jr. às 11h49
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   DOIS TEMPOS E ONTEM

ONTEM

O pequeno Pier veio me fazer uma visita. A mãe dele passou aqui rapidamente e entregou o pacote com uma cadeirinha, uma bolsa com fraldas e uma mamadeira e uma colchazinha.

A princípio, o pequeno observou todo o apartamento curiosíssimo. Depois reclamou um pouquinho. Peguei no colo e fiquei passeando com ele. Em pouco tempo, adormeceu. Coloquei o menino na cadeirinha. Dormiu uns bons 45 minutos. Acordou reclamando. Coloquei um pouco de água filtrada na mamadeira (seguindo instruções da mãe) e matei a sede do rapaz.

Logo depois ele arrotou no meu colo e fomos para o meu quarto. Deitei-o no centro da cama de casal, sobre a pequena colcha. Ele ficou entretido observando a janela e a televisão.

Então, a mãe do moço chegou. Terminava meu primeiro turno como babá de Pier.

Depois de soltar muitos peidos, a mãe de Pier percebeu que o rapaz estava todo cagado. Houve uma troca de fralda.

Quase todos os momentos da tarde foram devidamente registrados em fotos.

 

PRIMEIRO TEMPO.

Terça-feira em casa. Acordei com uma bruta enxaqueca. Tomei um analgésico e voltei para a cama com frio. Em Salvador faz frio.

Acordei no início da tarde e fiz comida. Um frango em pedaços com molho caramelizado com curry e shoyu e abobrinha, acompanhado de arroz jasmin no perfume de anis e batata-doce cozida.

Passei o resto da tarde resolvendo pequenas tarefas burocráticas e acadêmicas.

SEGUNDO TEMPO

Por volta das 17h30min peguei um ônibus que me deixou no Atelier de Culinária da Perini. Hoje tive aula. Aprendi a fazer quatro tipos de paella, com Isael Santos, o chef do restaurante Yemanjá.

Primeira paella: Valenciana. Carne de porco, frango, coelho e chouriço espanhol. Bom.

Segunda paella: Marinera. Lulas, camarões, mexilhões e chumbinho. Muito bom.

Terceira paella: Mista. Todos os animais anteriores misturados. Delícia!!

Quarta paella: Negra. Todos os frutos do mar anteriores, tingidos com a tinta da lula. Na teoria é mais bonita e mais gostosa que na prática.

Poderei testar as receitas em casa, na minha mega-wok adaptada. Mas não dá pra fazer pouca quantidade. Tem que convidar um batalhão de cobaias.


O que está bombando no iPod: Adriana Calcanhoto - Três. Calcanhoto reinventa Marina/Antônio Cícero. Achei a cifra para violão. Quero essa canção para mim.



Escrito por Celso Jr. às 00h54
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   FINDE

Fim-de-semana típico.

Nada a fazer. Muito sono. Lavei as cortinas e coloquei pra secar penduradas nos locais delas mesmo. Receita de família.

Domingo, fiz raviolis de batata-doce com noz moscada, regados na manteiga com sálvia e um perfume de alho. Dividi minha experiência com Tom, que veio almoçar comigo.

Hoje, já na segunda-feira, fiz tagliolini (uma espécie de espaguete fininho), com molho bolonhesa.

A máquina de macarrão sendo testada.

Chove na capital baiana. Em diversos blogs, relatos sobre encontros com pingüins. Não vi nenhum até agora. É uma tristeza. Me deu a impressão de que tenho olhado pouco pro mar. Ou nos momentos errados.

A tarde dedicada a arrumação. Joguei toneladas de músicas no lixo. Ganhei quase 8Gb de espaço.

Agora a máquina de lavar pratos está roncando na cozinha. Eu deveria estar roncando na cama (não dormi direito, atormentado por pesadelos, acordei de madrugada aos gritos), mas serei babá do pequeno Pier (que estará sendo deixado aqui em algum momento pela mãe dele)

Vidinha assim.


Bombando no iTunes: Bajofondo Tango Club - En mi/Soledad.

 



Escrito por Celso Jr. às 16h04
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   CHELPA FERRO E COMMEDIA DELL'ARTE

Ontem foi terça-feira. Meu dia de folga.

Pela manhã, fui ao banco, depositar o dinheiro do condomínio caríssimo. Para um prédio que não tem porteiro, não tem elevador e não tem área de lazer, o que eu pago é um excesso. A justificativa é que são apenas sete apartamentos e o único funcionário - um zelador de vida fácil, que trabalha aqui há quase trinta anos - fazem as contas ficarem pesadas. Vá entender.

Fui a pé - já que não possuo mais carro, que foi levado pela justiça pelos verdadeiros donos.

Na volta passei no mercadinho para comprar alguma coisa para o almoço.

Frango assado desfiado. Salada de tomate, queijo branco e manjericão temperada com azeite da Tunísia. E isso foi meu almoço. Depois das férias gastronômicas em São Paulo, preciso perder alguns quilos excessivos.

Logo após o almoço, segui minha maratona da 6ª temporada de Gilmore girls, cuja caixa eu comprei recentemente.

Léo me buscou no fim da tarde para irmos ao MAM, ver a exposição do grupo Chelpa Ferro. Na capela do museu, estava exposta a obra Jungle Jam, uma floresta elétrica, meio fantasmagórica, divertida e assustadora, onde equipamentos elétricos são acionados aleatoriamente e fazem girar sacos plásticos com griffes famosas. Luiz Zerbini e seus companheiros do grupo Chelpa Ferro não estão ali pra brincadeira. A proposta em si é simples e interessantíssima. Merecia uma iluminação mais cênica. O MAM precisa pensar nisso.

Fomos "adotados" por um rapaz que fazia a monitoria da obra. Ele explicou detalhes sobre os artistas, cruzou informações com outras obras do grupo e fez de tudo para que comprássemos o livro. Acabamos levando apenas um programa da exposição, com uma entrevista. O rapaz monitor era bem simpático.

Do museu, fizemos uma parada na Perini na Graça. Comemos salgadinhos, eu tomei um suco de laranja e ainda uma bola de sorvete de chocolate com crocante.

Dali, fomos ao Teatro Xisto Bahia para assistir à montagem de O mentiroso, uma peça do italiano Carlo Goldoni, traduzida e dirigida por Marcus Villa Góis.

Lenira Santos interpretando o velho Doutor Balela é impagável. Assim como é surpreendente o trabalho de Analice Lessa na construção de seu Pantaleão. Mas quem rouba a cena mesmo é a pequena Rebeca Dantas fazendo a Colombina. Um frescor em cena. E os figurinos são lindos: palmas para Rino de Carvalho que transforma trapos em luxo.

Duas coisas sobre a montagem.

Primeiro: é preciso cuidar das vozes dos atores. Não se pode subir num palco com a voz inculta. Do texto, muito se perde. O personagem Arlequim - feito por uma atriz - perde completamente a graça porque não compreendemos a voz da atriz. Não dá pra entender o que ela diz devido aos floreios vocais que a moça emprega, sem se preocupar com a articulação da fala. É uma pena.

Segundo: se o diretor está em cena como ator, o assistente deve ser primoroso na hora da marcação para evitar que as cenas fiquem "sujas" pelo acúmulo de gente em cena, sem um foco de ação.

Mais uma coisa: pra quê o cenário tentar ser uma representação fiel das ruas, canais e vielas de Veneza? Algo mais abstrato e simples causaria melhor efeito.

Apesar de tudo, me diverti.



Escrito por Celso Jr. às 09h54
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   BACK TO BAHIA

De volta a Salvador.

Toda a orla da Barra e Ondina em obras. Obras malucas de um prefeito doido que resolveu fazer nos últimos meses de seu governo tudo o que não foi capaz nos últimos quatro anos. Desespero de quem quer se reeleger. Não terá meu voto.

Não avistei nenhum pingüim até agora. Soube que já foram capturados mais de 400, nas praias de Salvador e Eunápolis. Até agora não vi nenhum.

Às vezes chove. Para quem passou quatro semanas de estiagem extrema em São Paulo, parece um milagre.

Ontem fomos assistir Amar ... Não tem preço, um filme francês que parece uma refilmagem (releitura) de Bonequinha de luxo. Filme divertido, com locações deslumbrantes e atuações impagáveis. Recomedadíssimo.

Hoje fomos assistir ao espetáculo circense-teatral L'Oratorio de Aurelia, com a aclamada neta de Charles Chaplin no elenco. É um espetáculo de boulevard, com números de ilusionismo. Fragmentos e imagens soltas. Belas imagens. Algumas realmente surpreendentes, como o momento em que um trem de brinquedo atravessa o corpo da atriz. Bem bonito.

Mas eu gosto de historinha. Eu gosto de narrativas. E isso o espetáculo não tem.

Hoje no almoço testei a minha máquina de macarrão. Fiz a massa de um fetuccini. Massa fininha, leve e saborosa. Fiz um molho bolonhesa para acompanhar. Ficou uma delícia. Minhas cobaias (Adriana, Breno e Leonardo) aprovaram. E eu me diverti muito fazendo a massa, afinando em delicadas lâminas e depois cortando em tiras finas. Terapêutico e divertido.


O que está tocando do iTunes: Philip Glass - Concerto para violino e orquestra. Tocou um trecho no L'Oratorio de Aurelia, fiquei com vontade de ouvir inteira.



Escrito por Celso Jr. às 00h09
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