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POEMA DE TOM ZÉ
AMADO MICHAEL (Tom Zé) Negro da luz que desbota branco Tanto talento tormento tanto Tanta afronta de pouca monta. Eia! virtudes em farta ceia Todo encanto que pode o canto Toda fiança que adoça a dança. Que deus nos furta vida tão curta? Mundo lamenta: ele mal cinquenta! A ninguém ilude essa bruxa rude. Paroxismo desse Narciso Que achou desgosto no próprio rosto E apedrejou-se com faca e foice. Avança a rua (uma dor que dança) E em seus telhados mandibulados Requebra os hinos do dançarino. Niños, rapazes, se sentem azes Herdeiros todos e seus parceiros Revelam parque, porto e favela. II Da Grécia três te trouxeram Graças Arcas repletas de belas artes Arcas que deram ciúme às Parcas. Que luz trarias tu, mitologia, Para um tal desatino de destino Que o espandongado toma por fado? Porque o povo grego disse que Se a hybris o herói consigo quis, Se condiz ao lado dela ser feliz Ele mesmo será pão e maldição Enquanto gera para os olhos de Megera.
Escrito por Celso Jr. às 21h13
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CINCO ANOS DEPOIS
Cinco anos depois da morte de meu pai, ainda sonho com fantasmas. Esta noite sonhei com armários embutidos lacrados. Preciso escancarar essas portas. Deixar entrar a luz do dia, tirar o mofo, rever as coisas, tomas posse do que seja meu. Seguir adiante. De algum modo adiante. Esta noite foi estranha. Eu havia combinado com amigos de ir ao Forró Caju pra assistir Elba. Mas eles esqueceeram de me ligar. Acabei ficando em casa, sozinho, lendo um livro. Não ter uma televisão tem dessas vantagens. Léo e Breno passaram o fim-de-semana comigo. Foram dois dias bem divertidos e calorosos. Depois que eles foram embora, fiquei sozinho demais. Mas agora tenho um trabalho a fazer. Preciso corrigir uma pilha de provas. E amanhã, tenho que dar início a um módulo de férias de uma disciplina da faculdade. Hoje é feriado em Aracaju. Acho que vou ao cinema, logo na primeira sessão. Vou assistir Valsa com Bashir. Aracaju é uma cidade engraçada. Às vezes... Sigo adiante.
Ontem à noite, cozinhei pela primeira vez no novo fogão. Fiz um macarrão básico. Penne com molho branco, presunto e queijo. Ficou bom. Comi junto do computador, de papo com Pris.
Escrito por Celso Jr. às 09h18
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RELATO DE UMA GUERRA
Ainda estou assustado. Ainda estou sobressaltado. Ainda estou espantado com a bênção da nossa calma. Minha, de Léo e de Laís. O que assusta - além das imagens terríveis gravadas na minha memória fotográfica - é a sensação de que poderia ter sido muito pior. As coisas poderiam ter saído do controle. Controle de quem? Dos três jovens (pobres, negros, drogados, deseducados) armados? Quem estava no controle daquela situação? A imagem de ver um rapaz empunhando um revólver, vindo diretamente para cima do carro, mirando certamente na minha cabeça, vai ficar gravada na minha mente até não-sei-quando. A sensação do cano frio do revólver sendo pressionado na minha têmpora. A sensação de que algo muito pior poderia ter acontecido. Porque eu só tinha quatro reais na carteira. Porque o rapaz que abordou Laís não encontrou dinheiro algum, nem o celular. Porque o rapaz que abordou Léo estava nervoso demais. Não sei fazer apologias sociais. Falo em nome das pessoas que eu amo e que estavam sob a mira de adolescentes (pobres, negros, deseducados, drogados), que em desespero (no afã de suprir a necessidade de drogas, talvez?) abordam carros em uma via pública, em plena noite de sábado, em busca de grana e celulares. Eles não queriam o carro. Eles não queriam deliberadamente machucar ninguém. Queriam grana e celulares. Além da violência tácita, não houve palavras de humilhação. Não era uma vingança. Eles eram objetivos: "Queremos grana e celulares". Não sou sociólogo. Não sou o salvador da pátria. Sou um cara que teve uma noite perfeita. Que assistiu a um filme excelente, com amigos. Depois saí pra jantar em boa companhia. Viro uma esquina e me deparo com uma guerra que - a partir de agora - será difícil continuar ignorando. Estamos em guerra. E estamos desarmados. Ou não? Não durmo direito. Nunca dormi direito. Estas duas noites têm sido pior. Na TV a cabo, não consigo assistir às cenas de violência. Evito revólveres. A sensação do cano frio do revólver na minha têmpora produziu uma espécie de "hematoma virtual". Só eu o vejo. Vou tentar dormir. Vou tentar chorar. Por enquanto, nem uma coisa nem outra. Só a imagem o rapaz armado vindo em minha direção.
O que também me assusta é eu não conseguir ser irônico, não consigo usar o sarcasmo, nem vejo uma ponta de humor. Ainda.
Escrito por Celso Jr. às 08h35
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Este é o relato de Léo, meu companheiro. Repasso a todos.
Celso Jr. ----------------------------
Bom dia gente,
Eu peço que todos aqui possam repassar o máximo de vezes e pessoas possíveis. Eu já tinha passado este e-mail como alerta. Agora passo como vítima e testemunha.
Ontem, a noite, eu, Celso e Breno estavamos no cinema. Quando saimos fomos pegar uma amiga que mora na dita rua deste e-mail e fomos jantar. Tudo muito legal e divertido como costuma ser nossos encontros.
Na volta deixamos Breno e Laís mora perto da casa de Celso. Sem se lembrar ou por distração, entramos na rua Ranulfo de Oliveira(a rua que liga Apipema/Ondina com a Centenário - muito usada por vários motoristas para encurtar caminho) pela Centenário e fomos recebidos, antes do primeiro quebra molas, com armas por três assaltantes adolescentes que vieram em direção ao carro de arma em punho. Celso ainda tentou dar r é, porém o maior venho correndo em nossa direção(pela frente do carro) apontando a arma para atirar. Este foi para o lado de Celso e mandou abrir a porta e que entregasse tudo de valor.
Um outro, menor, venho pelo meu lado (carona) e me mandou passar celular e dinheiro. Eu, não sei como, tive presença de espirito e não abri a porta, somente desci o vidro um pouco e passei meu relógio(que ainda nem acabei de pagar), dinheiro que tinha (R$ 62, acho) e tive novamente a presença de espírito de passar meu celular velho que estava no console do carro. Troquei de celular ontem e por conta da bateria do novo estar acabando, ainda saí com o velho para qualquer emergência. Sorte que ele não percebeu o novo no bolso da calça. Consegui me desvencilhar do meu assaltante e fiquei observando/interferindo na negociação de Celso com seu assaltante e de Laís com o dela, que estava com o rosto coberto.
Celso entregou a carteira e ele retirou R$ 4,00 e US$1,00. Levou seu celular novo, que acabara de comprar junto com o meu, na tarde do dia 20/06/2009. O seu assaltante encostou a arma na sua têmpora. Foram momentos muito longos e sofridos para mim. Vê-lo com uma arma em sua cabeça. O assaltante entendeu que não teria mais nada a levar dele e devolveu a carteira com os documentos e cartões. O de Laís, mandou abrir a porta e mandou passar a bolsa. Lembro-me de Laís negociando o que ele poderia devolvê-la. Ele, acredito, o mais novo do trio, nervoso não achou o dinheiro(guardado/escondido) de Laís e assim não levou absolutamente nada dela.
Bem, fomos liberados e Laís, cujo o celular tinha caído no chão do carro e eles não perceberam, ligou para seu pai que é policia civil e nos indicou para ir a Delegacia da Barra.
No farol encontramos com uma viatura da polícia militar onde paramos e informamos tudo rapidamente e eles chamaram a outra viatura e partiram correndo para lá. Chegamos na delegacia e prestamos queixa. Eu que sai do filme com muita dor de cabeça, a essa altura sentia um frio assustador(Laís me cobriu com seu casaco) e meu corpo tremia todo. Um dos policiais viu Laís pequena(essa foi uma parte muito chata/engraçada - além de todo o corrido- ele repetia isso um milhão de vezes). Este policial nos acompanhou até em casa e levou Laís na dela. Pronto gente, este é tudo que aconteceu conosco neste sábado à noite. Peço mais uma vez que repassem isso para todos que vocês conhecerem, para evitarmos outras vítimas e consequências ainda maiores, até que nossa "segurança" tome alguma providência.
Ainda sobre o efeito do acontecido, choro muito. Dormi pouco.
Abraços,
Léo.
P.s.: Lú (meu irmão) ainda não contei nada para nossa mãe. Vou pessoalmente, portanto se você ler antes das 11:00, não comenta nada com ela.
Escrito por Celso Jr. às 11h13
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AVENTURAS NA LINHA VERDE
Aos desavisados: estou morando metade da semana em Aracaju. Passei num concurso para professor efeitvo da Universidade Federal de Sergipe. Estou dando aulas no Núcleo de Teatro da UFS. Todas as semanas, desde março, estou indo para Aracaju e voltando para Salvador. Geralmente vou para Aracaju na quinta à noite. E vou para Salvador na terça pela manhã. Por causa do feriadão da semana passada (Corpus Christi), só fui para Aracaju no domingo. Acompanhado de meus intrépidos amigos Beto Laplane (que também é professor do mesmo curso que eu) e Claudio Simões (que foi dar uma palestra para meus alunos) Já estávamos no meio da viagem na Linha Verde, no ônibus da Bomfim, quando, na altura em que a estrada cruza com o município de Conde, o ônibus parou repentinamente. Era uma manifestação-protesto dos moradores de Conde. Eles fecharam a estrada. Estavam exigindo das autoridades a construção de quebra-molas ali para evitar o grande número de acidentes. Saltamos do ônibus. Claudio foi ver de perto a manifestação. Eu e Beto (mais cautelosos) ficamos de longe olhando. Tirei algumas fotos (que estão publicadas num álbum do Orkut) que mostram todos os perigos a que nos submetemos durante a aventura. Como os manifestantes queriam chamar atenção, aproveitei que ali tinha sinal de celular e liguei para uma amiga jornalista, que trabalha em A Tarde. Logo depois, o plantonista do jornal ligou para Laplane para saber detalhes. Depois de meia hora, nosso ônibus conseguiu furar a barreira dos moradores de Conde e seguimos viagem. Chegamos sãos e salvos. Alguns de nós menos sãos. Outros menos salvos. Mas todos vivos. Ainda.
Escrito por Celso Jr. às 00h46
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MAIS UMA CRÔNICA ANTROPOLÓGICA SERGIPANA: A NOITE DO FORRÓ GAY, LÉSBICO E SIMPATIZANTE
Na noite de sábado, fui levado (por um amigo que preferiu não ser identificado nestes cadernos) a um forró GLS, ou LGBT. Numa espécie de bar, boate, clube, perto da orla de Aracaju, uma festa de grande sucesso. Logo na entrada, havia uma fila imensa, onde os rapazes e moças aguardavam para comprar seus ingressos. E não era barato. R$20 só para ter acesso e assistir ao show de uma banda que fazia um Calypso cover, com direito a uma traveca simulacro de Joelma, a cantora-dançarina-loura do Calypso. Em todo o material de divulgação (sim, eu fiz pesquisa, antes de aceitar o convite), a menção a esta banda era sempre como um "Calypso couver", escrito desta maneira mesmo "couver", não sei explicar o por quê. Apesar de ser um forró, não havia muita gente a caráter. Poucos rapazes e moças se vestiam com roupas que lembravam os figurinos típicos das festas juninas. Havia uma senhora de colete xadrez que lembrava muito meu falecido tio Paulo. Tio Paulo não morreu! Ele virou sapatão e mora em Aracaju. O evento foi um acontecimento. Muitos jovens se esmeraram na produção visual. Muita camiseta estampada com apliques de paetês e outros brilhos, muita calça jeans com acessórios extravagantes (tachas, zipers, cortes costumizados e lavagens sugestivas) além de cabelos. Em Aracaju, há uma preocupação interessante com os formatos dos cabelos. Muito corte a máquina, muito gel fixador. Havia uma outra senhora com o cabelo mullets (batido em camadas na franja e coma nuca mais comprida) e uns rapazes cujos topetes desafiavam as leis da gravidade e o poder de fixação do laquê. Não se via muita griffe aparente. Consegui identificar uma camiseta Calvin Klein, uma outra camista Osklen (coleção nova, num rapaz bem moderninho), mas meu poder de observação às vezes se perdia na quantidade de estampas. A festa tinha mais mulheres que homens, algo em torno de 60% de frequentadoras, contra o restante de rapazes. Muitos casais dançando forró. A uma certa altura da noite, começaram a explodir muitos beijos por todos os lados. Paixões juninas. Encontrei alguns alunos e alunas. Encontrei alguns colegas professores, encontrei alguns conhecidos de Aracaju. Por volta das 3 da madrugada, depois de comer um espetinho de coração, beber uma H2OH e algumas latinhas de cerveja (não há como enfrentar uma banda "couver" de Calypso uma noite inteira, em estado de lucidez e sóbrio), voltando pra casa, senti uma imensa falta da musiquinha eletrônica que embala minhas noites de balada. Ao chegar em casa, coloquei pra tocar uma faixa do disco que eu acabei de baixar do grupo japonês de música eletrônica chamado Denki Groove. A manhã de domingo é embalada por Philip Glass e Chet Baker. Meus ouvidos merecem alívio depois da noite regada a Calypso "couver".
Escrito por Celso Jr. às 11h17
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O ESTRANHO MUNDO DA CULTURA CONTEMPORÂNEA (ou tudo que nele pode caber)
Semana passada houve o ENECULT. Um grande encontro de acadêmicos que pesquisam coisas relacionadas à cultura. Várias palestras, mesas redondas, debates. Eu propus - junto com alguns amigos - uma mesa sobre aspectos da "baianidade" como identidade e de que modo isso é (e vem sendo) explorado e apresentado na TV e no teatro. Minha pergunta é: o teatro atual baiano dá conta de representar o homem baiano atual? Outra pergunta: de que modo a televisão contribuiu para a construção dessa "bolha-de-sabão" chamada baianidade? Não creio que chegamos a responder totalmente a qualquer dessas perguntas. Mas o debate foi interessante. Principalmente no que diz respeito aos negros, aos homens e mulheres de uma classe-média baiana que rara e dificilmente se vê refletido na tela da TV ou no palco. Nosso debate acabou me fazendo elaborar uma outra pergunta: o que é "baianidade"? E ainda: se isso existe, o que seria a "cearensidade" ou o que é a (só pra ser bem atual, na minha vida) "sergipanidade"? Que características são essas que estão associadas de modo tão grudado aos habitantes de Salvador? Mais uma vez, não chegamos à conclusão. Mas os ouvintes da nossa mesa puderam explicitar suas incertezas e expor seu espanto diante de tantas coisas. Outra coisa me vem à mente. Quando eu penso em cultura, eu penso em arte, certo? Errado. Diante das palestras e mesas e debates que ocorreram nesses três dias de ENECULT, percebo que cultura não tem muito a ver com arte. E, se tem, é apenas em um número bastante reduzido de pensadores. Fiz uma pesquisa bem safada na publicação final do ENECULT e descobri muito pouco se discutiu sobre teatro (apenas duas mesas), nada de dança, nada de pintura, escultura. A música esteve presente, com destaque até. Com direito a aula-concerto de Wisnik e tudo. Talvez eu seja um saudosista. Talvez eu esteja sentindo falta do tempo em que cultura e arte eram irmãs siamesas. Se foram um dia, estão separadas cirurgicamente. E a maior prova disso é a política cultural das nossas secretarias de cultura. O secretário estadual de cultura de Sergipe caiu, foi substituido pela até-então secretária estadual de Comunicação. Ele: antropólogo. Ela: coordenadora de eventos. A cultura de Sergipe está nas mãos de uma organizadora de eventos. Ao que parece, as festas de São João serão boas em Aracaju. Nem sei se eu preferia o antropólogo (que, segundo dizem, caiu em depressão depois da oneração) (talvez o fim do salário de R$ 12 mil tenha sido uma das causas da tristeza do homem) (eu ficaria triste) (chega de parêntesis, coisa chata) Não sei direito o que é cultura. Acho que sei o que é arte. Semana que vem vou assistir ao espetáculo do grupo Pilobolus. Será que farei as pazes com a dança contemporânea? É noite e faz frio em Aracaju.
Escrito por Celso Jr. às 00h58
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A NOITE DE ERÊNDIRA
Um vento sobrenatural soprou sobre a cidade a noite inteira. Uivos pela casa. Janelas e portas batendo. Incessante. Incansável. Tive uma noite horrível, sem conseguir dormir direito. Imaginando que algo terrível pudesse acontecer a qualquer momento. Não deixei nenhuma vela acesa perto de cortinas. Nenhum risco de incêndio. Nem há cortinas para serem queimadas. Nem velas. Mas a noite inteira escutei os uivos do vento pelas frestas. Imaginei que a manhã trouxesse um pouco de alívio, mas não. O vento ainda sopra com força pelos céus da cidade. Temerário, ameaçador, áugure de tempestades. Ontem à noite, antes de vir para casa, passei no supermercado. Um aviso: devido às chuvas recentes, algumas hortaliças deixaram de ser vendidas. Não há hortaliças devido às chuvas. Tudo alagado. Que hortaliça suporta tanta chuva? Hoje pela manhã cedinho, um carro passa com um som altíssimo, tocando pagode (ou arrocha, não sei direito diferenciar). Tão alto que dispara o alarme dos carros estacionados nas ruas. Aracaju é uma cidade de ruídos. Vigilantes assoviam a noite inteira. Os carros buzinam a cada esquina. ouve-se pagode (ou arrocha) em alto volume. Não há espaço para o silêncio.
Escrito por Celso Jr. às 08h35
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NUVENS CINZAS
saí de casa às 4:48, três minutos depois do horário marcado com o táxi. Paguei doze reais e cinquenta centavos para chegar à rodoviária. Parado no sinal vermelho, notei que o dia surgia timidamente através das nuvens pesadas e cinzas no céu (céu ainda tem acento?). Só pensava na pizza que eu iria comer no outro extremo daquele dia, do dia. Do dia que nem tinha começado. Fim do dia anterior. Dormir perto da meia-noite. Descansar pra enfrentar a estrada dentro do ônibus gelado (por que o ar-condicionado dentro do ônibus é tão forte? tão frio?). Estou no ônibus. Penso no relógio despertando pouco tempo antes de o taxi chegar. Tenho pouco tempo. Em quinze minutos, ou menos, tomar banho, me vestir, comer alguma coisa rápida, iogurte com aveia. Lembro da combinação do sabor ácido do iogurte com a textura da aveia na boca. Quando o interfone tocou, eu estava no meio do pote de iogurte. Pelado. Saí do banho quente direto pra geladeira. Enquanto eu comia as colheradas de iogurte, olhava a cidade ainda de noite. Nesse momento, nada parecia amanhecer, só o frio da madrugada. Vi o taxi virando a esquina. Pelado, com aveia na boca. Menos de um minuto depois, o interfone toca. Engulo o resto de iogurte com aveia. Cheiro de cigarro dentro do taxi. O dia quase nasceu. E eu parado dentro do taxi, sentindo o cheiro do cigarro, olhando as nuvens cinzas e
Escrito por Celso Jr. às 22h43
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AGORA QUE IDADE TEM? (Fernando Pessoa)
Ontem seria aniversário de meu pai, se ele estivesse vivo. Meu pai faria 66 anos ontem. Mas ele morreu há alguns anos. Há relatos nestes cadernos de todo o processo da doença, internamento, doença e morte. Estão nos escritos entre maio e junho de 2004. Meu pai esteve presente no meu aniversário de 36 anos. Depois não esteve mais. Hoje eu tenho 41 anos. E continuo envelhecendo. Tenho hoje a idade que minha mãe tinha quando ela morreu. Minha mãe morreu aos 41 anos. Tão jovem que jovem era! Chegarei à idade que meu pai tinha quando morreu? Ele morreu aos 61 anos de idade. Tenho 20 anos pela frente, para ter a idade que ele tinha quando morreu. Ontem lembrei de meu pai. Ontem falei dele. Ontem lembrei que ele faria 66 anos. Agora que idade tem? Rezo por ele.
Escrito por Celso Jr. às 14h54
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