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O PANORAMA DO TEATRO BAIANO - 2012
Fui convidado para compor a Comissão Julgadora do Prêmio Braskem de Teatro deste ano. E já comecei a assistir aos espetáculos concorrentes. Toda semana, a produção do prêmio envia, por e-mail, uma lista com espetáculos que devem ser assistidos. Essa foi a 3ª vez que me convidavam. E eu sempre recusava, porque sempre quis mais concorrer do que julgar. Mas, depois de pesar alguns prós e contras, decidi participar da comissão. Contras. - Impossibilidade de concorrer com espetáculos meus que venham a estar em cartaz.
- Preguiça mortal de assistir a todos os espetáculos de uma temporada anual de Salvador (cerca de 50, entre adultos e infantis)
- Sensação de estar "julgando meus pares"
Prós. - Possibilidade de compor uma comissão com um olhar diferente do das anteriores.
- Grande oportunidade de ter um painel amplo da produção teatral de Salvador em 2012.
- Exercício do olhar crítico, que está cada vez mais afinado e mais "cirúrgico".
A maratona de espetáculos já começou. Já assisti a dois. Por razões éticas óbvias, vou evitar de escrever a respeito dos espetáculos aqui. De qualquer modo, estou fazendo anotações sobre tudo que eu assistir. Acho que, depois da premiação, em abril de 2013, eu publico um grande texto a respeito do panorama do teatro baiano, em 2012. Vamos aguardar.
Escrito por Celso Jr. às 10h47
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CADERNOS DE VIAGEM: TRÊS DIAS EM SAMPA
Dia 01. Chegamos em Congonhas às 19:15h, bem na hora crítica do rush. Priscilla foi nos buscar de carro, ela mora ali perto. Chegamos em casa, tomamos banho, batemos papo e fomos a pé para o Arturito, um restaurante comandado por uma chef argentina. Entrada com uma tábua de frios e embutidos fatiados, Pata-Negra, Parma, e um pão chato e crocante. Eu acabei pedindo de prato principal um Capellini com lulas e tomates cereja. Estava bom. De sobremesa, profiteroles com sorvete de dulce-de-leche e sorvete de baunilha,e calda de chocolate amargo. Bom. Léo comeu um contrafilé grelhado com purê de batatas e uma farofa de pão que estava gostoso. Moisés comeu uma talhata de filé com salada. Priscilla comeu ravioli de abóbora, que parecia bem gostoso. Depois do jantar, estávamos exaustos da viagem, acabamos indo pra casa dormir.
Dia 02. Acordamos por volta das 9h. Café-da-manhã em casa, com croissants e broas. Fomos ao CCBB-SP para ver a exposição sobre a Índia. Didática, histórica, e interessante. Dali, fomos ao restaurante indiano Madhu, para almoçar. A comida boa de sempre, num serviço mais ágil que da outra vez que fomos lá. Desta vez, algumas das mesas estavam ocupadas por indianos e descendentes de indianos, o que é um bom indício de que a comida é boa mesmo. Comi um curry de carne, com chapat e um pão chato de arroz. Muito gostoso mesmo! E de sobremesa umas bolinhas fritas de leite, com calda aromatizada de rosas e sorvete. Delícia. De lá, fomos ao Teatro Bradesco, no Shopping Bourbon, pra assistir ao musical Priscilla, a rainha do deserto. A adaptação australiana do filme consegue um efeito de instalação da atmosfera, assim que dá o terceiro sinal: um imenso globo de espelhos ilumina o teatro inteiro e já nos transporta para uma boate com shows de transformistas em Sydney. As músicas - sucessos da dance music, dos anos 70 e 80 - não foram traduzidas, o que é um alívio, para os musicais brasileiros. Além das músicas do filme, são acrescentadas outras canções, também marcantes do período disco. As três personagens atravessam o deserto, cada uma com um objetivo diferente. E suas aventuras vão acontecendo, como um road movie. Realmente, o musical é muito divertido, mas perde muito do aprofundamento das motivações e detalhes das vidas e do passado de cada uma das personagens. Apesar disso, é envolvente e chega a emocionar, em alguns momentos. O encerramento com uma canção das Frenéticas é brilhante. Neste momento, parece que o circuito se fecha, palco se incendeia de alegria e constroi a ponte que faltava entre Sydney e Brasil, assim, os temas da peça (busca de um amor verdadeiro, reencontro pai e filho, bullying e homofobia) ganham contornos universais e o espetáculo responde à questão: "O que eu tenho a ver com isso?" Canção de As Frenéticas, no final da peça mostra que o que se vê no palco poderia estar acontecendo em qualquer outro lugar do planeta, até aqui no Brasil. Depois do teatro, ainda fomos jantar no Le French Bazar, um simpático restaurante de culinária francesa em Pinheiros. Bebemos vinho rosé e nos divertimos muito.
Dia 03 Acordamos um pouco mais tarde e, depois do café-da-manhã em casa, partimos para o Memorial da America Latina, na intenção de ver o grande painel Guerra e Paz, de Portinari. Frustração. Parece que metade da população de São Paulo teve a mesma ideia. Filas imensas. Desistimos e seguimos com a segunda parte da programação: Pinacoteca. Uma grande exposição com obras (desenhos, pinturas, gravuras e esculturas) de Alberto Giacometti. Um crítico afirma que Giacometti é uma espécie de "Beckett da escultura". Concordo plenamente. As figuras sombrias e semideformadas apontam uma visão de mundo muito semelhante à que Beckett apresenta em sua obra literária e dramatúrgica. A exposição é acompanhada por trechos e fragmentos de Jean Paul Sartre, de quem Giacometti era muito amigo (dizem que até íntimo demais...) Há entre as obras expostas, inclusive, alguns retratos e esculturas que tiveram Simone de Beauvoir como modelo. Uma bela exposição, bem montada, interessante. Depois fomos almoçar no Chez Mis, um restaurante bem moderno que fica no Museu da Imagem e do Som, nos Jardins. Comida contempoânea paulista. Boa. O lugar é lindo. Ainda deu tempo de passar na Ofner e comer um éclair de chocolate, antes de embarcar em Guarulhos de volta. Assim, termina a viagem. p.s. Impressionante a confusão e a falta de preparo dos funcionários de terra da Gol, no aeroporto de Salvador, onde eu fiz uma conexão. Por causa dos funcionários, uma situação que era meio confusa (o aeroporto está em obras de manutenção) se transformou num pequeno caos. Tem que ver isso aí, Gol!
Escrito por Celso Jr. às 12h06
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JOÃO NO XINGU
O filme Xingu, produção brasileira da Globo Filmes, dirigida por Cao Hamburger, se afasta um pouco do estilo "comédia de costumes" que marcaram a produtora vinculada à TV de mesmo nome. Xingu parte de uma história verdadeira, ocorrida entre 1943 e os anos 70, quando os irmãos Cláudio, Orlando e Leonardo Villas Bôas, pelo sabor da aventura e espírito humanista, desbravaram a região central do Brasil e ampliaram nossos contatos com indígenas da região do alto Xingu, entre Mato Grosso, Goiás e Tocantins. O filme parece optar claramente por mostrar apenas o lado humanista e heróico dos irmãos. Que são retratados quase que estoicos aventureiros, respeitadores das culturas indígenas e defensores dos malvados (neste caso, os homens brancos fazendeiros, garimpeiros, seringueiros e alguns políticos) e, quando qualquer um deles sai da trilha do bom-mocismo, é banido da história e punido pelo destino. O roteiro parece não se pretender a criar um pseudo-documentário, ao contrário, apresenta as situações sem muita preocupação cronológica ou histórica, obtendo um efeito fragmentado interessante. O problema está nos diálogos, que não conseguem acompanhar o vigor das situações propostas, nem ajudam os atores em suas composições. O elenco central, com o trio de irmãos interpretados por João Miguel, Felipe Camargo e Caio Blat, é um show à parte. Apesar de não serem auxiliados pelos diálogos, conseguem compor seus personagens em situações que transitam entre o drama sócio-político-antropológico geral e os pequenos dramas familiares pessoais. Tudo isso com muita desenvoltura. Destaque absoluto para a criação de João Miguel, que consegue nos mostrar um trabalho muito maduro que investiga emocionalmente a fundo cada nuance e motivação de sua personagem. Tanto o trabalho de composição como o de recriação emocional são tão impactantes que chegam a emocionar, mesmo nas longas cenas sem diálogos. Outro destaque fica por conta da beleza de se escutar as línguas indígenas no filme. Os atores indígenas trazem com vigor e orgulho suas línguas para a tela. A cena do primeiro encontro entre os irmãos Villas Bôas e os índios é arrepiante. E a imagem do encontro inédito com um integrante de uma tribo dos "gigantes do norte" é muito marcante. Xingu é um belo filme. Que provavelmente vai fazer sucesso no mercado internacional. Apesar das notícias de que foi recebido sem entusiasmo no Festival de Berlim.
Escrito por Celso Jr. às 23h55
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O RESGATE DE MARTIM GONÇALVES – ou “Ser artista é fracassar”.
É estarrecedor, para qualquer pessoa interessada na história do teatro baiano, entrar em contato com as informações contidas na tese de Jussilene Santana, a respeito de Martim Gonçalves. A sensação que eu tenho é de que eu fui enganado esse tempo todo. Desde que me aproximei da Escola de Teatro, no final dos anos 80, fui formando uma imagem e colando os pedacinhos da história de Martim, a partir da memória dos professores, de alguns livros, e de muitas lendas e mitos que envolviam o nome do fundador da Escola de Teatro. Mas a memória é uma bailaria infiel e sedutora. E a pesquisa de Jussilene indica que muito do que propaga ainda hoje a respeito de Martim Gonçalves, não passa de uma falácia, criada por seus antípodas e divulgada e ampliada (quem conta um conto...) por aqueles que acabaram perpetuando o mito. Através da pesquisa de Jussilene, se redescobrem as relações de Martim com Pierre Verger e Lina Bardi. Eu costumo rejeitar a expressão “resgate”, nas pesquisas acadêmicas (sempre acho meio estranho alguém dizendo que está fazendo o “resgate” de uma história, ou de uma cultura, ou de um conhecimento), mas, neste caso, acho apropriado afirmar que Jussilene fez o resgate da figura história de Martim Gonçalves. Porque esta figura estava sequestrada. E o preço que pagamos foi viver esses 50 anos alienados da importância histórica porque preferimos acreditar na versão dos gregos, em vez de tentar entender a visão desse troiano. Jussilene resgata a memória de Martim e restabelece o valor desse homem, sem cuja existência estaríamos jogados no mar de lama do provincianismo autofágico, à mercê da entropia incestuosa que toda província insiste em patrocinar, em nome de uma ilusão estúpida de que o “novo” e o “estrangeiro” virão aniquilar sua modorrenta tranqüilidade. Há dois caminhos: o caminho em direção ao novo, em direção ao fracasso. Ou o caminho da mesma velha estrada gasta. Os provincianos temem o fracasso. Os verdadeiros artistas caminham em direção a ele.
Escrito por Celso Jr. às 20h41
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O CRÍTICO
Certa vez, Beckett citou o filósofo belga Arnold Geulincx, para se defender das más críticas: Ubi nihil vales, ibi nihil velis. (Onde nada vales, nada deves desejar). Uma pessoa percebe que está chegando à maturidade quando se dá conta de onde vale algo, e onde deve desejar algo. Acho que estou atingindo a maturidade, pois cada vez mais tenho a clareza de onde tenho sido valorizado e onde não valho muita coisa ou, por outra, onde talvez o meu valor se mascare de uma ameaça que nem mesmo eu tinha noção de que existia. E, se eu ameaço alguém - por causa do meu valor - devo me sentir mais lisonjeado que triste ou decepcionado. É claro que a tristeza e a decepção existem, mas elas estão dando lugar à lisonja. Semana passada recebi uma boa notícia. Tirei 1º lugar num concurso estadual de críticas sobre teatro. Na Bahia. Minha análise crítica a respeito de um espetáculo teatral me valeu (e me fez valer) uma inesperada menção de valorização do meu pensamento. E ainda ganho, de quebra, uma reflexão: minha voz merece ser escutada, minhas palavras merecem ser lidas, minha opinião vale alguma coisa. Escrevi um texto técnico e opinativo, buscando, de forma elegante, esclarecer ao leitor alguns detalhes que as opções que os artistas envolvidos no espetáculo teatral analisados pareciam escolher, para a criação e execução de seu espetáculo. Como não acompanhei o processo de montagem, não posso fazer uma crítica genética, desvendando os detalhes e minúcias dos bastidores da criação. Fiz uma análise a partir do projeto proposto para a montagem (que eu conhecia) e minha experiência na plateia, ao assistir ao espetáculo. Muito bem. Devo ter feito um bom trabalho, na minha análise, já que inscrevi no concurso de críticas e fui honrado com o 1º lugar. Muito bem. Semana passada, recebi uma notícia frustrante. Meu espetáculo Caso sério (no qual, além de atuar, co-dirijo) foi simplesmente rechaçado na seleção do II Festival Sergipano de Teatro porque, segundo informação extraoficial, o material de inscrição teria chegado após a avaliação da comissão de seleção já ter definido os espetáculos apresentados. Apesar de estar com o carimbo do correio dentro da data prevista no Edital, mesmo coberto legalmente pelo direito de entrar com um recurso para a revisão da decisão da comissão, mesmo sabendo que eu poderia comprar essa briga, eu decidi ignorar esta decisão. Nem sei quem é a comissão julgadora. Depois, através das bocas-miúdas e dos correios paralelos, fiquei sabendo que o real motivo da recusa da participação de Caso sério no II Festival Sergipano de Teatro foi o fato de eu ter produzido esta peça originalmente na Bahia e que, para os olhos dos que estavam me julgando aqui, continuo sendo um estrangeiro que ameaça a eterna coesão provinciana. Ora, no Edital, em nenhum ponto, havia qualquer impedimento para que o espetáculo não pudesse participar. "Se ele pensa que vai trazer esse espetáculo dele da Bahia, está muito enganado. Nosso edital é apenas para as peças daqui." Imagino que teria dito alguém envolvido nesse embroma. Provavelmente um dos donos do teatro sergipano. Sim, porque em Sergipe, o teatro possui donos, que agem como os veneráveis coronéis tradicionais, usando dos mesmos artifícios, que vivem "na cintura dos favores do poder" (como diria Hamlet), sempre em busca de dinheiro. E, como todos sabem, quem tem acesso ao dinheiro - mesmo que público - detém o poder. Esses são os donos do teatro sergipano. Mandam, desmandam, se julgam intocáveis. E, obviamente, desprezam o saber acadêmico. Porque, pasmem, o pensamento acadêmico pode desfazer enganos, abrir os olhos, incentiva a reflexão. Mas essa reflexão é o que ameaça os donos do teatro sergipano. Porque a reflexão ameaça a coesão provinciana, ameaça o imenso pacto histórico da mediocridade, da manutenção do mofado e gasto status quo. Onde nada vales, nada deves desejar. Minha palavra aqui não vale nada. Não devia desejar outra acolhida. E assim, continuo com olhos críticos, assistindo a quase tudo. Mas, menos generoso com minhas palavras críticas. As terão quem as merece. Serão lidas (e ouvidas) por quem as merecer. Onde nada vales, nada deves desejar.
Escrito por Celso Jr. às 02h11
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PINA, POR WIM
Pina Bausch morreu recentemente. E deixou uma lacuna. Ela provavelmente é uma das criadoras mais importantes das artes cênicas no século 20. Ela misturou dança e teatro e reinventou os dois. Só um falante de alemão é capaz disso. Ela inventou uma coisa que precisou da invenção de um nome pra existir: Tanztheater. Dança-teatro. Pina morreu. Mas o cineasta alemão Wim Wenders resolveu recriar Pina e imortalizar a obra. As artes cênicas são muito efêmeras. Os registros precisam ser minuciosos e criteriosos para que a obra cênica não pereça. Wim Wenders decidiu reinventar Pina. E fez um filme poético, que está longe de se encaixar nos manuais de "como fazer um documentário". As potentes imagens cênicas de Pina Bausch penetram a tela do cinema com vigor, em 3D. E Wim abre espaço para os depoimentos de quem conviveu com Pina. Há, para nós brasileiros, um tempero a mais. A companhia de dança de Pina Bausch é internacional. Logo no começo do filme, ouvimos um dançarino russo, depois uma dançarina francesa e outra norteamericana. E ouvimos japonês (ou coreano, não sei diferenciar as sonoridades). E alemão, claro. Lá pelo meio do filme, surge a voz de Caetano Veloso, cantando O leãozinho numa das coreografias-solo apresentadas pelos dançarinos. E perto do fim, uma dançarina brasileira fala, em bom português, sobre a leveza de Pina. PINA é um filme lindo que me levou às lágrimas. Mas eu sou fresco mesmo, choro por tudo.
Escrito por Celso Jr. às 23h38
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SOBRE APRENDER A DEFINIR MELHOR AS PRIORIDADES
Acabo de me dar conta de que o ano letivo mal começou de verdade, e eu já estou exausto. O problema foi não conseguir dar conta das coisas que eu tinha escolhido fazer porque foram sendo atropeladas por coisas que eu fui obrigado a fazer. Na corda-bamba entre o trabalho artístico, o trabalho acadêmico, o trabalho administrativo, a pesquisa, a escrita... Foi tudo acumulando e ficando confuso. Eu - como sempre - travei. Estou me sentindo como os hoarders, os acumuladores. Só que, em vez de coisas, estou acumulando tarefas, pendências, respostas. E aí, parece que eu entro numa espécie de bolha desconfortável e angustiante, que me impede de seguir adiante. E aí, eu me metamorfoseio numa personagem de Beckett: "Não posso seguir em frente. Vou seguir em frente". E aí, não durmo e me metamorfoseio em uma personagem de Shakespeare: "Glamis matou o sono, Cawdor não dorme mais. Macbeth não dorme mais". E eu sei o que eu tenho que fazer agora. Respirar lenta e profundamente, encontrar um fio da meada do meu cérebro hoarder, concentrar nisso. Vamos acompanhar.
Escrito por Celso Jr. às 12h00
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EM SÉRIE
Tenho assistido a algumas séries. Estou em pleno processo de redação da tese de doutorado. Minha tese versa sobre as imagens de deformação do tempo, nas peças de Samuel Beckett. É um assunto tortuoso, que tem me levado a estudar assuntos e autores que exigem um nível de atenção e de compreensão de raciocínio, às vezes, muito complicado. E eu vou destrinchando esse nó que eu mesmo escolhi pra mim. Mas não dá pra ficar imerso nesse universo teórico compexo o tempo todo, senão a gente pira. Para me dar um refresco, eu assisto a séries americanas (e uma britânica), que oferecem a diversão necessária para que eu possa voltar depois aos tortuosos caminhos da tese. Eis aqui alguns comentários a respeito delas. 2 BROKE GIRLS - Warner Duas garotas novaiorquinas muito diferentes acabam tendo de viver juntas e enfrentar os perigos do mundo. Uma nasceu pobre, filha de pai desconhecido, trabalha como garçonete em uma lanchonete de 5ª categoria. A outra é filha de um bilionário desonesto que está preso, ela está totalmente falida e acaba trabalhando na mesma lanchonete. As duas acabam se tornando uma dupla improvável e muito engraçada. Os diálogos são escritos pelo mesmo autor de Will&Grace, ou seja, qualidade garantida! DOWNTON ABBEY - (não sei se será exibida no Brasil) É uma série dramática inglesa que vem recebendo todos os prêmios do setor. Narra as histórias de uma grande propriedade inglesa, no início do século 20. Logo no primeiro episódio, recebemos a notícia do trágico naufrágio do Titanic. A primeira temporada se encerra com a declaração da Primeira Guerra Mundial. A segunda temporada se inicia nas trincheiras da guerra e continua até o assolamento da Gripe Espanhola pela Europa. Uma característica interessante desta série é que eles retratam não apenas os ricos, mas também os criados. Como sempre, os atores ingleses são excelentes. Eu soube que está fazendo imenso sucesso na própria Inglaterra também. SUBURGATORY - Warner O que acontece quando vc tira uma adolescente novaiorquina descolada de 16 anos, filha de um jovem pai viúvo, e a coloca num daqueles subúrbios americanos quase caricaturais, com gente cafona e um estilo de vida suburbano (nos Estados Unidos é totalmente diferente do brasileiro, é bom ficar claro). Nós enxergamos esse mundo bizarro através dos olhos da protagonista e suas aventuras. Personagens hilários, roteiros absurdos e um bom ritmo de edição. Os americanos conseguem fazer autocríticas de modo bem cruel, quando querem. Uma surpresa fica por conta de Jeremy Sisto (que interpreta o jovem pai solteiro da adolescente), que parece se sair muito bem, num ambiente menos denso e mais cômico que seus outros papéis na TV. AMERICAN HORROR STORY Terminei de ver a 1ª temporada dessa série espetacular de horror, criada pelos mesmos criadores de Glee e Nip/Tuck. Aterrorizante. Mas talvez o grande mérito foi está no conceito central que norteia a trama. Já que é quase impossível se criar histórias de horror originais, eles citam e fazem referência a quase todos os tipos de bizarrices do mundo do terror americano. Então, os roteiros dos episódios são criados a partir de material de filmes como O iluminado, O bebê de Rosemary, Twin Peaks e por aí vai. Vemos citações ao Massacre da serra elétrica, Tiros em Columbine, filmes de zumbi e cenas de halloween. Essa mistura de temas de um mesmo gênero talvez não obtivesse um bom resultado, se os roteiristas não tivessem a segurança de transitar de modo preciso entre o grotesco e o aterrorizante. E destaque total e absoluto para a interpretação estratosférica de Jessica Lange. Uma diva. (Ver com atenção uma das cenas dela, no 9º episódio, de tirar o fôlego) GRIMM - Universal Channel Pegue as histórias dos irmãos Grimm (responsáveis pelos contos infantis de Chapeuzinho vermelho, Os três porquinhos e O flautista de Hammelin, entre outros) e misture com um roteiro policial de investigação, tipo CSI ou Law&Order. A cada episódio, novos personagens mágicos surgem. Bem interessante e divertido. Alguns episódios são tão sombrios que parecem filmes dirigidos por David Fincher, de Seven. Muito bom. Outras séries que eu tô assistindo: GREY'S ANATOMY THE GOOD WIFE THE BIG BANG THEORY.
Escrito por Celso Jr. às 19h17
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É POSSÍVEL SER DIDÁTICO, NO TEATRO, SEM SER CHATO?
É! Brecht pregou isso o tempo todo. Teatro pode ser didático, mas nem por isso precisa ser chato. Teatro é pra entreter, é pra emocionar, é pra fazer refletir, é pra divertir. O espetáculo Entre nós é uma prova viva de que Brecht tinha razão. Texto e direção de João Sanches. Em cena, os atores Igor Epifânio e Anderson Dy Souza (detesto numerologia, detesto! Pronto, desabafei!) e ainda o músico Leonardo Bittencourt, tocando sua guitarra ao vivo, contracenando com sonoridades. Vamos por partes. O texto é didático e divertido. Explora de modo eficaz os caminhos tortuosos da dramaturgia épica. As personagens estão em cena narrando suas ações, usam verbos no pretérito, para situarem o espectador na pequena trama, que vai-se construindo magicamente na sua frente. Com efeitos textuais simples, o texto flui de modo delicado e suave, nos transportando para a história das personagens. Um adolescente ("virgem de homem e de mulher") se descobre gay, ao se descobrir apaixonado por um colega de escola. Ao tentar lidar com a situação e tentando evitar confusões maiores, acaba se envolvendo em uma confusão cada vez mais intrincada, que atinge seus pais, o outro rapaz, uma colega da escola, uma velha prostituta, a orientadora educacional da escola. Todos vão sendo retratados de modo quase caricatural, no desenrolar da trama. A direção parece querer acentuar o ritmo da encenação, usando artifícios interessantes para isto. Os dois atores se revezam em todos os papéis, eles mesmos operam o equipamento de luz em cena, saltam de um ponto ao outro da trama, com desenvoltura e agilidade. Há um porém, nessa aparente acentuação do ritmo, a direção acaba atropelando alguns momentos preciosos onde as atmosferas mais delicadas poderiam ser mais bem exploradas. Se o efeito da aceleração cria um espetáculo ágil e vertiginoso, por outro lado acaba superficializando momentos preciosos de intimidade com o público. EM vez disso, a direção opta por usar os efeitos sonoros para criar "pontos de exclamação" na ação da peça. Os dois atores demonstram uma bela intimidade em cena. Parecem dois trapezistas, que se arriscam e se entregam com segurança aos seus papeis, sem medo de avançar na caricatura quando é necessário ou de explorar as emoções mais delicadas (a direção podia ajudar, mas não chega a atrapalhar), de qualquer modo, há em cena uma segurança evidente na relação entre elenco e direção. O tom didático da peça é justificado e mesmo autoapontado, de modo crítico, pela própria encenação. Assim, o resultado final é um espetáculo divertido, leve e eficiente, que trata de forma simples de assuntos que poderiam ser pesados, sem cair na chatice de um didatismo tolo, pelo contrário. Destaque para a versão rock'n'roll'n'bossa de Leonardo Bittencourt para a canção "Carinhoso", num dos momentos impactantes da montagem. Entre nós é uma bela surpresa.
Escrito por Celso Jr. às 02h22
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PARA UM ANO QUE AINDA NÃO ACABOU
2011 foi um ano complexo, pra mim. Coisas muito boas aconteceram. Coisas muito tristes aconteceram. Resolvi não fazer uma retrospectiva, resolvi não colocar numa balança, não rever, não revisitar. Mesmo porque, acho perigoso brincar com um ano que ainda tem quase 24 horas pra se dar por encerrado. Muita coisa ainda pode acontecer. Melhor evitar um "the end" redentor, sob pena de receber pela cara uma surpresa. Melhor evitar. Ressalto dois acontecimentos marcantes deste ano. 1. A morte da minha avó Ísis, mãe do meu pai. Mais que avó, uma dupla mãe. Foi minguando até que a fortaleza de espírito fosse apenas uma lembrança doce. A memória fragmentou, o corpo foi diminuindo, a força escoou pelo tempo. Ela morreu no exato dia em que minha mãe - sua nora querida - completou 20 anos de morta. Data fechada, redonda, instransponível. Minha alegria é saber que a bisneta Jéssica terá boas lembranças dela. As duas juntas eram uma farra só, alegria para todos os lados. D. Ísis partiu em 2011. 2. A peça Vozes distantes, escrita por mim, condenada precocemente à gaveta, foi uma das 12 selecionadas de um concurso nacional de dramaturgia. O valor que meus pares - com raras exceções - recusavam a admitir ou mesmo enxergar foi exposto à prova, numa leitura pública no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. O resultado é o surgimento de um "eu" autor, escritor. E a experiência da potência libertadora da escrita. Alguns escritos na gaveta serão resgatados. Algumas ideias serão desenvolvidas. Preciso apenas me livrar de um compromisso inadiável: a tese. Esta, também, um exercício potente de afirmação expressiva. Há alguma relação entre os dois fatos marcantes deste ano. Acho que são pontos extremos de uma linha, cujo ponto central é meu coração - que, em 2011, eu descobri ser, na verdade, uma bomba-relógio, por enquanto desarmada (com química e exercícios físicos). Meu coração-bomba-relógio entre a morte da minha avó e o reconhecimento tardio como escritor. O ano não poderia ser mais simétrico. Restam poucas horas pra esse ano de 2011 acabar. Vou rezar para que acabe bem. Que venha 2012. Sem exclamações.
Escrito por Celso Jr. às 00h59
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