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É POSSÍVEL SER DIDÁTICO, NO TEATRO, SEM SER CHATO?
É! Brecht pregou isso o tempo todo. Teatro pode ser didático, mas nem por isso precisa ser chato. Teatro é pra entreter, é pra emocionar, é pra fazer refletir, é pra divertir. O espetáculo Entre nós é uma prova viva de que Brecht tinha razão. Texto e direção de João Sanches. Em cena, os atores Igor Epifânio e Anderson Dy Souza (detesto numerologia, detesto! Pronto, desabafei!) e ainda o músico Leonardo Bittencourt, tocando sua guitarra ao vivo, contracenando com sonoridades. Vamos por partes. O texto é didático e divertido. Explora de modo eficaz os caminhos tortuosos da dramaturgia épica. As personagens estão em cena narrando suas ações, usam verbos no pretérito, para situarem o espectador na pequena trama, que vai-se construindo magicamente na sua frente. Com efeitos textuais simples, o texto flui de modo delicado e suave, nos transportando para a história das personagens. Um adolescente ("virgem de homem e de mulher") se descobre gay, ao se descobrir apaixonado por um colega de escola. Ao tentar lidar com a situação e tentando evitar confusões maiores, acaba se envolvendo em uma confusão cada vez mais intrincada, que atinge seus pais, o outro rapaz, uma colega da escola, uma velha prostituta, a orientadora educacional da escola. Todos vão sendo retratados de modo quase caricatural, no desenrolar da trama. A direção parece querer acentuar o ritmo da encenação, usando artifícios interessantes para isto. Os dois atores se revezam em todos os papéis, eles mesmos operam o equipamento de luz em cena, saltam de um ponto ao outro da trama, com desenvoltura e agilidade. Há um porém, nessa aparente acentuação do ritmo, a direção acaba atropelando alguns momentos preciosos onde as atmosferas mais delicadas poderiam ser mais bem exploradas. Se o efeito da aceleração cria um espetáculo ágil e vertiginoso, por outro lado acaba superficializando momentos preciosos de intimidade com o público. EM vez disso, a direção opta por usar os efeitos sonoros para criar "pontos de exclamação" na ação da peça. Os dois atores demonstram uma bela intimidade em cena. Parecem dois trapezistas, que se arriscam e se entregam com segurança aos seus papeis, sem medo de avançar na caricatura quando é necessário ou de explorar as emoções mais delicadas (a direção podia ajudar, mas não chega a atrapalhar), de qualquer modo, há em cena uma segurança evidente na relação entre elenco e direção. O tom didático da peça é justificado e mesmo autoapontado, de modo crítico, pela própria encenação. Assim, o resultado final é um espetáculo divertido, leve e eficiente, que trata de forma simples de assuntos que poderiam ser pesados, sem cair na chatice de um didatismo tolo, pelo contrário. Destaque para a versão rock'n'roll'n'bossa de Leonardo Bittencourt para a canção "Carinhoso", num dos momentos impactantes da montagem. Entre nós é uma bela surpresa.
Escrito por Celso Jr. às 02h22
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PARA UM ANO QUE AINDA NÃO ACABOU
2011 foi um ano complexo, pra mim. Coisas muito boas aconteceram. Coisas muito tristes aconteceram. Resolvi não fazer uma retrospectiva, resolvi não colocar numa balança, não rever, não revisitar. Mesmo porque, acho perigoso brincar com um ano que ainda tem quase 24 horas pra se dar por encerrado. Muita coisa ainda pode acontecer. Melhor evitar um "the end" redentor, sob pena de receber pela cara uma surpresa. Melhor evitar. Ressalto dois acontecimentos marcantes deste ano. 1. A morte da minha avó Ísis, mãe do meu pai. Mais que avó, uma dupla mãe. Foi minguando até que a fortaleza de espírito fosse apenas uma lembrança doce. A memória fragmentou, o corpo foi diminuindo, a força escoou pelo tempo. Ela morreu no exato dia em que minha mãe - sua nora querida - completou 20 anos de morta. Data fechada, redonda, instransponível. Minha alegria é saber que a bisneta Jéssica terá boas lembranças dela. As duas juntas eram uma farra só, alegria para todos os lados. D. Ísis partiu em 2011. 2. A peça Vozes distantes, escrita por mim, condenada precocemente à gaveta, foi uma das 12 selecionadas de um concurso nacional de dramaturgia. O valor que meus pares - com raras exceções - recusavam a admitir ou mesmo enxergar foi exposto à prova, numa leitura pública no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. O resultado é o surgimento de um "eu" autor, escritor. E a experiência da potência libertadora da escrita. Alguns escritos na gaveta serão resgatados. Algumas ideias serão desenvolvidas. Preciso apenas me livrar de um compromisso inadiável: a tese. Esta, também, um exercício potente de afirmação expressiva. Há alguma relação entre os dois fatos marcantes deste ano. Acho que são pontos extremos de uma linha, cujo ponto central é meu coração - que, em 2011, eu descobri ser, na verdade, uma bomba-relógio, por enquanto desarmada (com química e exercícios físicos). Meu coração-bomba-relógio entre a morte da minha avó e o reconhecimento tardio como escritor. O ano não poderia ser mais simétrico. Restam poucas horas pra esse ano de 2011 acabar. Vou rezar para que acabe bem. Que venha 2012. Sem exclamações.
Escrito por Celso Jr. às 00h59
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TRÊS TEATROS
Não existe um modo único de fazer teatro. O que caracteriza o teatro contemporâneo é a variedade e a pluralidade. Não há uma forma determinante. Essa é a "cara" do teatro, desde o início do século 20 até os dias de hoje. Um retrato fragmentado, múltiplo, que possui centenas de faces e fases. Recentemente, estive em São Paulo e fui assistir a três exemplos de espetáculos totalmente diversos, cada um com suas qualidades. PRIMEIRO TEATRO. CABARET, de John Masteroff (baseado no romance Adeus, Berlin, de Christopher Isherwood) A versão brasileira da peça foi traduzida por Miguel Fallabela e dirigida por José Possi Neto. Musical de sucesso na Broadway, traz Cláudia Raia encabeçando o elenco numeroso. A história se passa em Berlin, nos anos 30, sob o ponto de vista de um jovem norteamericano que deseja se tornar um escritor. Ele vive suas aventuras, se envolvendo com uma das moças do cabaré. É um retrato potente da Alemanha pré-nazismo, com sua permissividade, agitação e vida noturna estimulante. Berlin, no início dos anos 1930, era considerada uma cidade permissiva, aberta e atraiu milhares de pessoas de todo o mundo. Em contrapartida, uma forte crise econômica, que colocou a maioria da população à beira da miséria, criou o ambiente propício para que o discurso facista do partido Nacional Socialista (Nazista) florescesse e elegesse por voto direto - e celebrado, na época - o austríaco Adolf Hitler como premier e desse início a um dos períodos mais turbulentos e cinzentos da história da humanidade. É nessa atmosfera - entre a euforia da "louca Berlin" e o florescimento do nazismo - que a peça ocorre. O cabaré é comandado por um Mestre de Cerimônias interpretado com competência por Jarbas Homem de Mello. As canções do musical são conhecidas e as traduções são bem interessantes, mantêm a métrica e a sonoridade dos originais em inglês. A direção de Possi imprime um ritmo excelente à montagem e consegue equilibrar o tom "cafona" e os números musicais. Cláudia Raia parece felicíssima em cena. Canta e dança bem. E se preserva emocionalmente para se "entregar" na cena final de sua personagem. É um belo espetáculo, com boas atuações e muito bem produzido. SEGUNDO TEATRO VIVER SEM TEMPOS MORTOS, baseado em textos de Simone de Beauvoir, dirigido por Felipe Hirsch, com Fernanda Montenegro. Confesso que fui ao teatro com uma baixa expectativa. Nunca gostei muito de Fernandona. Sempre a achei excessiva no teatro. Fiquei abismado. Na minha opinião, essa é uma das peças mais radicais que eu já assisti. A atriz simplesmente permanece sentada numa cadeira, de frente pra plateia, durante a duração total da peça, quase sem se mexer. A direção de arte de Daniela Thomas criou um espaço cênico é ascético: um tablado retangular de uns 10cm de altura, uma cadeira, um bólido sobre a cabeça da atriz, e só. Durtante uma hora e quarenta minutos, vemos e ouvimos pequenos detalhes da vida da escritora francesa, seus casos amorosos, sua vida em comum com Jean Paul Sartre. Fernanda não representa Simone de Beauvoir, ela interpreta. Ela não se preocupa em fazer uma imitação de gestos ou maneirismos vocais: ela simplesmente está contando uma história. Imóvel, sentada, usando o recurso de um microfone (o que intensifica o efeito minimalista da voz, que não precisa, assim, grandes recursos de dicção para ser ouvida), Fernanda está regida pela direção de modo a apenas mover os antebraços em alguns poucos momentos e menear a cabeça para os lados em dois preciosos pontos. A justificativa para tanta imobilidade é dada perto do final da peça, quando a personagem nos informa onde está e o que está fazendo. É de tirar o fôlego. Assim, num palco minimalista, quase sem gestos, se fez uma das peças mais radicais em cartaz atualmente. Fernanda Montenegro, aos 82 anos de idade, usa das palavras de Simone de Beauvoir para falar de si, de sua vida com o marido recentemente falecido. Desta maneira, evita os maneirismos vocais típicos da Grande Dama do Teatro Brasileiro e apresenta um momento íntimo, discreto e belo. TERCEIRO TEATRO OS ALTRUÍSTAS, de Nick Silver. Do mesmo autor de Pterodátilos, esta montagem prova que um bom texto sobrevive mesmo à pior das direções. Um elenco aparentemente perdido em cena, sem saber lidar com o universo de Nick Silver. Cada ator parece estar fazendo uma peça diferente. Mariana Ximenes até consegue realizar bem o papel da atriz de novela que se envolve num crime violento. Miguel Thiré é um homem lindo e talentoso, mas a direção o atrapalha. Kiko Mascarenhas "erra na mão" ao apresentar o irmão gay deslumbrado da atriz de novelas. Talvez por responsabilidade da direção, há algo muito errado no tom de sua composição, porém, este tom parece dominar o espetáculo. Seria interessante assistir a esta peça nas mãos de um diretor mais experiente, com ideias mais seguras a respeito da atmosfera de sua peça. Ao final, parece uma peça estilo "besteirol baiano" dos anos 90. Assim, a temporada paulistana oferece três exemplos de teatro.
Escrito por Celso Jr. às 10h18
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MUITO BARULHO POR (QUASE) NADA
Volto em breve.
Escrito por Celso Jr. às 20h49
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TROFÉU CADERNOS GRAMPEADOS DE TEATRO (FIAC 2011)
Resolvi inventar uma premiação para o que eu achei que se destacou nesta edição do FIAC. Assisti, ao todo, 18 apresentações. Vou me isentar de comentar ou indicar os espetáculos de dança. Estou usando as mesmas categorias do Prêmio Braskem de Teatro, incluindo apenas as categorias de atores coadjuvantes. Quem discordar, fique à vontade para comentar, com gentileza, e argumentação civilizada. obs.: Eu sou pisciano, posso mudar de ideia. É assim: Pra criar uma expectativa, hoje eu vou divulgar os indicados. Depois, eu digo os vencedores.
Danilo canguçu sugeriu eu fazer uma enquete. Como faz? Melhor texto: (indicados) NINGUÉM FALOU QUE SERIA FÁCIL OXIGÊNIO EL PASSADO ES UN ANIMAL GROTESCO Melhor cenografia: (indicados) EL PASSADO ES UN ANIMAL GROTESCO R&J DE SHAKESPEARE - JUVENTUDE INTERROMPIDA OXIGÊNIO Melhor direção: (indicados) DANIEL VERONESE - Espia a una mujer que se mata MÁRCIO ABREU - Oxigênio MARIANO PENSOTTI - El passado es un animal grotesco Melhor atriz coadjuvante: (indicadas) SILVINA SABATER (Teleguin) - Espia a una mujer que se mata KRISTIEN DE PROOST - Coalition Melhor ator coadjuvante: (indicados) DANIEL BECKER DENOVARO - Diário do Farol MARCELO BERÉ - A devolução industrial Melhor atriz: (indicadas) MARA BESTELLI (Helena) - Espia a una mujer que se mata PAULA LICE - Pogobol PATRICIA KAMIS - Oxigênio MARIA INES SANCERNI - El passado es un animal grotesco Melhor ator (indicados): JAVIER LORENZO - El passado es un animal grotesco RODRIGO BOLZAN - Oxigênio RODRIGO PANDOLFO (Julieta) - R&J de Shakespeare - Juventude interrompida FELIPE ROCHA - Ninguém falou que seria fácil FÁBIO OSÓRIO - Edital Melhor espetáculo (indicados): ESPIA A UNA MUJER QUE SE MATA OXIGÊNIO R&J DE SHAKESPEARE - JUVENTUDE INTERROMPIDA
Escrito por Celso Jr. às 11h19
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CADERNOS DO FIAC #09 - SOUVENIR, EDITAL e COALITION
SOUVENIR (Plano piloto) - (Teatro/dança/performance - Brasil, Bahia) - Um quintal, em Brotas O projeto autoral de Jorge Alencar nos transporta literalmente à sua investigação sobre a memória. Souvenir parece nos remeter à memória das aventuras, experiências e brincadeiras do autor na infância, localizadas no quintal. O ponto inicial é o pequeno trajeto que fazemos de Kombi branca, entre o Goethe Institut e o quintal onde acontece a ação. Já no quintal, nossos sentidos começam a ser estimulados. Uma moça serve mungunzá quente e logo depois os três intérpretes/dançarinos executam um pequeno número em que marcam o ritmo. Aos poucos, somos banhados pelas imagens e referências - sempre com a "grife" Dimenti - em sequências pop, superficializadas e fragmentadas. O elemento cômico sempre presente, o elemento drag também. Mas nesse pequeno espetáculo, Jorge parece abrir mais generosamente sua criação para um "eu" poético interessante, e convida o espectador a uma viagem para dentro de seu quintal. Acho que a leitura de Bachelard ajuda. Sonoridades, cheiros, cores. Tudo parece remeter a memórias bastante vívidas. Um belo momento é a sequência depois do banho de mangueira, em que os intérpretes parecem peixes se debatendo. Sem dúvida, e com respeito às outras criações, é uma das melhores criações do Dimenti. Na minha opinião. Até agora.
EDITAL (Plano piloto) - (Teatro/dança/performance - Brasil, Bahia) - Teatro do Goethe Institut Fabio Osório, intéprete e produtor do Dimenti, apresenta seu projeto-autoral. Numa linha ético/política que segue o caminho trilhado por Porta cabide, Fábio consegue, com uma sutileza e poesia incríveis, fazer uma crítica brutal aos processos de financiamento de obras artístias dos atuais governos. Em sua "palestra", ele desmonta e desconstrói esses processos de financiamento, deixando transparecer a angústia do artista diante da possibilidade de execução do mesmo. Aos poucos, ao apresentar as propostas que recebeu em seu "Edital para a aquisição de uma obra artística", efetiva a proposta e sai do campo da "palestra" e vai para o mundo da performance fragmentada. A diferença dos outros trabalhos do Plano piloto é que, aqui, tudo culmina de modo equilibrado e artisticamente mais bem acabado e coerente com a performance como um todo. Belo trabalho, que transparece uma inteligência trasnbordante ao tentar dar conta da angústia do artista diante dos modos de fazer arte.
COALITION - (Teatro/videoarte/performance - Bélgica) - Teatro Vila Velha O título remete, tanto em inglês como em francês, a aliança. Por trás do cinismo e do humor das performances fragmentadas que tratam sempre dos possíveis acidentes e fatalidades que podem acontecer num teatro, há um discurso político denso que revela justamente as alianças ocultas, na política internacional dos tempos da Guerra Fria, e seus reflexos hoje. O palco quase vazio vai sendo preenchido por objetos trazidos pelos próprios atuantes. Um homem cita as diversas coincidências - algumas impressionantes, outras delirantes - entre os assassinatos de Abraham Lincoln e John F. Kennedy. Uma mulher lê obsessivamente as datas de validade dos extintores de incêndio do teatro. Um homem vestido com um longo vermelho e cafona canta uma canção de Dalida, cuja letra pede à morte que a encontre num palco. Um paraquedista questiona a segurança das dobraduras do para-quedas. Depois somos informados a respeito de uma infinidade de acidentes e fatalidades ocorridos em teatros pelo mundo. Entre cada um desses fragmentos, trechos de um quebra-cabeça político internacional envolvendo a queda de um avião de caça soviético, numa casa da região rural do interior dos Países Baixos, em 1989. Ao final, se reconstroi a casa destruida pelo caça e há uma representação de sua destruição. Apesar da aparente incoerência, há ali uma narrativa bem amarrada que culmina com o final apoteótico, quando todos - público e elenco - se vêm forçados a se retirarem do teatro, sob algum tipo de ameaça. Intrigante, inteligente e bem construido. Sem esquecer a ironia e o humor, como elementos marcantes. Assim, termina o FIAC. Que venha o próximo. E que os critérios de seleção para os espetáculos locais sejam melhor definidos e divulgados antes da edição 2012. Vamos crescendo. Juntos.
Escrito por Celso Jr. às 00h12
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CADERNOS DO FIAC #08 - A DEVOLUÇÃO INDUSTRIAL, SINGLE e EL PASSADO ES UN ANIMAL GROTESCO
A DEVOLUÇÃO INDUSTRIAL - (Teatro - Brasil, Brasília) - Sala do Coro/TCA Um espetáculo voltado para o público infantil. Apenas três atores em cena.
Misturando várias referências míticas - do candomblé à Teogonia grega - o grupo brasiliense Udi Grudi apresenta sua fascinante viagem pela história da evolução do ser humano e as modificações que ele tem realizado no planeta. Logo no início, eles cortam legumes que irão para uma grande panela de pressão e, assim, tem início o cozimento de uma grande "sopa primordial" Duas coisas chamam atenção nesta inventiva montagem. 1. A pesquisa sonora, que extrai musicalidade de objetos inusituados, até chegar ao ápice final com a execução de Águas de março, de Tom Jobim. 2. A invenção fascinante de objetos com materiais reciclados, que vão se transformando em máquinas desengonçadas, com diferentes funções e meios de combustível. Tudo isso intermeado por rotinas de clown, em que o Homem-Sapiens e a Mulher-Sapiens vão aprendendo a lidar com as coisas do mundo. O terceiro ator, parece representar tudo que é mítico, místico e mágico. Tudo muito lúdico e fascinante. E, essa é a grande qualidade do espetáculo, didático sem ser cartesiano ou enfadonho. Diversão total. E ao final, ainda servem para o público o resutado de suas experiências, a sopa primordial que foi feita ali, na frente dos olhos de todos.
SINGLE - (Instalação coreográfica - Brasil, Bahia) - Teatro do Goethe Institut Léo França é um artista inquieto que se lança na realização de pesquisas expressivas em diversas áreas. Vídeo, fotografia, performance, dança. Em Single, ele apresenta sua estranha "dança-instalação" sem duração determinada. O público é convidado a percorrer o espaço de atuação como quem aprecia a uma exposição de arte, numa galeria. Fora da sala, um Uno com o porta-malas aberto apresenta videos com imagens e depoimentos nas ruas de uma cidade. Na antessala do teatro, um longo texto plotado no chão que parece ser o resultado de um fluxo de pensamento, em escrita automática, cercado de tijolos. Na sala, o público está impedido de usar as cadeiras do teatro, que estão ocupadas por mais tijolos. Um aquário com setas de metal no centro da sala. O público anda lentamente, em volta da "cena". Ao fundo, iluminado por uma projeção de video, a figura de um homem que parece uma espécie de animal metálico realiza uma sequência de movimentos em repetição. Movimentos sobre uma plataforma, queda, deslocamento no espaço. A coluna vertebral do "animal metálico" é formada por setas de ferro. Tudo isso com uma música eletrônica ruidosa e marcante. Uma experiência interessante e ritualística.
EL PASSADO ES UN ANIMAL GROTESCO - (Teatro - Argentina) - Teatro Martim Gonçalves Uma imensa estrutura giratória domina o palco. São quatro nichos que, à medida que a estrutura gira, se modificam em ambientações diferentes. Apenas quatro atores se revezam como personagens e narradores em meia duzia de histórias. Cada história - que raramente se entrecruzam - segue momentos das vidas de pessoas que não se conhecem. O texto da peça é essencialmente narrativo. E a estrutura gira ininterruptamente, criando um efeito hipnótico, ao mesmo tempo que determina o ritmo interno de cada cena. As histórias são frragmentadas e isso, somando ao fato de serem basicamente narradas, diminui o efeito catártico para o público, que não se emociona. O que mais chama atenção é a qualidade excepcional da contrarregragem, que consegue realizar mudanças inteiras de cenografia, entre um giro e outro. Excelentes atores completam o quadro. Sem dúvida, um dos melhores momentos do FIAC. Quando eu crescer, quero ser argentino.
Escrito por Celso Jr. às 09h38
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CADERNOS DO FIAC #07 - XOU, POGOBOL e 45 MINUTOS
XOU (Plano piloto) - (Performance - Brasil, Bahia) - Teatro do Goethe Institut Mais um resultado da pesquisa do Dimenti. Aqui, o caráter performático ganha cores mais acentuadas. Durante cerca de 25 minutos, Vanessa Mello permanece em cena, sob as luzes, com diversos objetos espalhados, em prantos. O choro - marcadamente artificial e exagerado - contrasta brutalmente com a identidade dos objetos - uma boneca Barbie, balões cor de rosa, uma capa de um LP da Xuxa. A performer parece querer revisitar suas emoções de adolescente/criança, lançando referências fetichistas, principalmente em relação à figura mítica de Xuxa (o título da performance, grafado "Xou", escrito numa das paredes do fundo do teatro é uma pista). Vanessa alcança um efeito cômico/patético ao simular as poses de Xuxa na capa do disco, desconstruindo trejeitos e murmurando, entre o pranto, algo que parecem as canções infantilizadas da "musa". Ao final, se retira de cena em direção a uma parede de fumaça cênica, que parece remeter à nave usada no programa de TV.
Intrigante performance. A "grife" Dimenti impressa em cada detalhe (fragmentação, referências pop, superficialização de temas, esvaziamento) Fofoca: após o término desta primeira performance, o crítico Macksen Luiz, que atualmente escreve sobre teatro no jornal O Estado de S.Paulo, se retirou da sala, com um aspecto nada amigável. Acho que ele não gostou. Talvez o Dimenti seja "moderno" demais para ele. POGOBOL (Plano piloto) - (Performance - Brasil, Bahia) - Teatro do Goethe Institut
Paula Lice, do Dimenti, apresenta uma performance que parece baseada num fluxo de pensamento (método usado pos alguns artistas surrealistas), onde as palavras e imagens que vão surgindo na mente do performer, sem interferência de um texto preestabelecido, apenas um roteiro de ações e/ou movimentos. Sempre usando referências pop - nesta apresentação, Paula estava especialmente "focada" nos anos 80 -, vamos acompanhando o ritmo estonteante do pensamento de uma atriz. Destaque visual para o figurino elaboradíssimo e à maquiagem que emprestam um requinte à cena. Perto do final da apresentação, Paula percorre as pastas virtuais de seu notebook (o que testemunhamos através de um projetor) e escreve uma espécie de carta, em escrita automática, para o público, enquanto toca uma canção de Fátima Guedes. Numa das pastas, uma sugestão de título para a performance, que talvez traduza melhor a atmosfera geral da apresentação: Trevas diversas. Fica a sugestão.
45 MINUTOS - (Teatro - Brasil, São Paulo) - Teatro Molière - Aliança Francesa Uma anti-peça protAgonizada por Caco Ciocler. Texto escrito por Marcelo Pedreira, sob a direção de Roberto Alvim. Um ator é incumbido de entreter uma plateia por 45 minutos. Mas, para isso, lhe é negado um texto dramatúrgico, uma personagem, uma sequência lógica de ações. Ou seja, na anti-peça, a questão parece ser: o que resta ao ator se lhe sequestrarmos todos os procedimentos tradicionais do teatro e o lançamos no mundo do teatro pós-dramático? E mais: qual a consequência de fazer isso com um ator bem preparado para os grandes dramas, capaz de investigar, com sua interpretação, as grandes agonias do homem? O resultado desse embate é a angústia. Mas o espetáculo é difícil, indigesto e não faz concessão ao entretenimento. Há um momento muito especial, em que o ator recita uma parte do monólogo do 3º ato do Hamlet, de Shakespeare. Ali, Caco prova sua capacidade como ator, surpresa apenas para quem não o assistiu em Os sete afluentes do rio Ota ou Imperador e Galileu. Depois de 45 minutos (que durou mais de 1h20min, na verdade) o plano era ver DENTROFORA porém, houve um imenso atraso para o início do espetáculo, que começou com 40 minutos de atraso. Perdi a peça gaúcha.
Escrito por Celso Jr. às 12h18
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CADERNOS DO FIAC #06 - SOFÁ e R&J DE SHAKESPEARE - JUVENTUDE INTERROMPIDA
SOFÁ (Plano piloto) - (Dança - Brasil, Bahia) - Lounge do Goethe Institut Um dos resultados da pesquisa do Dimenti, um coletivo que vem se destacando pela produção caprichada de experimentos na fronteira entre teatro, dança, performance e cultura pop. Criado e interpretado por Márcio Nonato, Tiago Lima e Jorge Oliveira. Em apenas 16 minutos, Jorge Oliveira e Tiago Lima ficam dando comandos enquanto Márcio Nonato vai fazendo uma espécie de strip-tease em volta, sobre, por cima e por baixo de um sofá. O resultado é um pequeno espetáculo de dança que, em muito, lembra a estética do próprio Dimenti (quando oferece "quebras" na sequência de movimentos e fragmenta a dança ao mesmo tempo em que gera um efeito de distanciamento) e ainda do Coletivo Vagapara (do qual Jorge e Márcio fazem parte diretamente e Tiago é um colaborador, principalmente no caráter "performático" que a apresentação ganha). Logo no início, ainda faz uma referência ao video-dança Sensações contrárias, criado por Jorge Alencar e Amadeu Alban. Interessante resultado de um processo de pesquisa.
R&J DE SHAKESPEARE - JUVENTUDE INTERROMPIDA - (Teatro - Brasil, Rio de Janeiro) - Teatro Vila Velha Eu já havia assistido ao espetáculo no Rio, em agosto. Quatro jovens atores interpretam as personagens do clássico Romeu e Julieta, segundo crítica Barbara Heliodora, a peça mais amada de Shakespeare. A direção imprime uma leitura atual, no ritmo e no excelente trabalho de atuação do elenco. Quando assisti, no Rio, comentei no blog o seguinte: "Uma adaptação moderna, enxuta e muito enérgica de Romeu e Julieta, interpretada por apenas quatro rapazes. Partindo do pressuposto de que são rapazes de um colégio interno católico, os estudantes aproveitam a noite após as aulas, para encenar Romeu e Julieta. Atores sensacionais (e lindos!) reinterpretam as palavras de Shakespeare com humor e vitalidade. Se a TV brasileira ainda reluta em apresentar dois homens se beijando, no palco, os beijos possuem uma verdade e uma paixão poucas vezes vista em cena. Destaque total para o ator que interpreta Julieta. Ele consegue nos apresentar com verdade e sem distanciamento crítico a sua menina de 14 anos apaixonada. Linda peça." Continuo achando a montagem sensacional. Na versão que veio a Salvador, o ator que faz a ama é diferente do que eu assisti no Rio. Aqui, o excelente Pablo Sanábio, que interpreta o cabeleireiro fechativo em O Astro e que é produtor da peça, brilha interpretando também o Frei Lourenço. O ator que o substituiu era excelente também. Definitivamente, uma das melhores montagens do 4º FIAC.
Escrito por Celso Jr. às 23h18
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CADERNOS DO FIAC #05 - ANÔNIMOS, NINGUÉM FALOU QUE SERIA FÁCIL e OXIGÊNIO
DIA DE MARATONA. TRÊS ESPETÁCULOS E A CORRERIA DE TRANSITAR PELA CIDADE INTRANSITÁVEL. ANÔNIMOS - (Teatro - Brasil, Ceará) - Teatro Gamboa Nova Texto, concepção, direção, cenografia e interpretação de Sidney Malveira. Talvez nessa concentração de tarefas é que resida o maior entrave do pequeno espetáculo: parece não haver um "olho de fora" que auxilie na concepção da montagem. O que se apresenta parece ser uma etapa de um espetáculo ainda inacabado. A composição corporal e vocal do ator é interessante, mas a falta de uma dramaturgia consistente acaba por transformar a apresentação em algo que parece uma etapa de um processo. Nos cursos de formação de ator, logo no início, os alunos/atores são estimulados a comporem vocal e corporalmente uma "personagem" a partir da observação de pessoas (às vezes animais, ou até mesmo objetos) e depois apresentarem pequenas improvisações-solo onde estas composições podem ser vistas. Este é um dos fundamentos da técnica de Stanislavski, a observação. Em seu espetáculo, Sidney nos apresenta esta etapa do processo de criação de um espetáculo: a observação. Mas quando o discurso cênico parece apontar para uma "lição" sobre a velhice e o abandono a que os idosos estão submetidos, todo o esforço da caracterização caprichosa do ator sucumbem totalmente. Brecht afirma categoricamente que o palco não deve ser um local para pregar ou ensinar. Nesse sentido, a cena final de O jardim das cerejeiras, de Tchékhov, (estou pegando apenas um exemplo), em que Firs, o velho criado de mais de 80 anos, é abandonado por desleixo, na casa que será demolida, talvez funcione muito mais para nos ajudar a refletir sobre as agruras da velhice. Só não consigo compreender realmente os critérios de curadoria do FIAC, para trazerem esse tipo de espetáculo - incipiente e mal acabado, apesar de bem intencionado - para o Festival. Ou será que há ali algo que "desloque o olhar" e "amplie o olhar e reflexão sobre criação e modos de realização" ou que haja uma "produção investigativa e explerimental"? Se há, não vi.
NINGUÉM FALOU QUE SERIA FÁCIL - (Teatro - Brasil, Rio de Janeiro) - Teatro do Goethe Institut A Companhia carioca Foguetes Maravilha, sob a direção de Felipe Rocha (que é um fofo, vamos combinar!), traz o resultado de uma pesquisa intensa sobre as relações familiares e, principalmente - e isse é o que está por baixo da superfície do espetáculo - uma rigorosa pesquisa sobre a dramaturgia. Durante quase uma hora e quarenta minutos, vemos os três atores se revezarem em papeis de pessoas de uma mesma família, em situações de conflito ou reflexão. Mas o mais interessante é o modo como a dramaturgia vai sendo escrita às vistas do público à medida em que as ações avançam. O público participa e é envolvido o tempo todo na composição. Em nenhum momento somos esquecidos pelas personagens. Claramente construído através de improvisações, a história central da menina Marina, de 3 anos, aos poucos, ganha sua trajetória no palco. A relação com o pai ausente, a mãe possessiva, o conflito na hora de abandonar a chupeta, o mundo fantasioso da menina, tudo isso gera cenas por vezes hilárias, outras vezes líricas. O universo fragmentado de cenas que se sucedem dá espaço para que o espetáculo investigue dramaturgicamente as relações humanas e quebre o horizonte das expectativas óbvias, em cenas que beiram o surrealismo. Um belo espetáculo que consegue simultaneamente ser investigativo, contemporâneo e agradar ao gosto popular. Lições a serem aprendidas.
OXIGÊNIO (Teatro - Brasil, Curitiba) - Teatro SESC/SENAC Pelourinho A Companhia Brasileira de Teatro veio no ano passado, pro FIAC, com outro espetáculo: Vida. Um belo espetáculo sobre as relações humanas, baseado no universo de Paulo Leminski e uma cenografia deslumbrante. O texto de Oxigênio é composto por dez citações bíblicas, que são esmiuçadas e refletidas na relação de um casal envolto numa história de paixão e assassinato. Aqui sem mantém o tom "épico" do outro espetáculo do grupo, o que oferece um indício do estilo que se pretende seguir. Numa cenografia mais uma vez deslumbrante, além do casal de atores/narradores, há um músico. E a sonoridade de um rock pesado e seco acompanha cada uma das cenas/composições. Os atores Rodrigo Bolzan e Patrícia Kamis são também músicos, tocam instrumentos durante a peça. Aqui, assim como em Ninguém falou que seria fácil, num certo momento, a dramaturgia parece usar como tema a própria escrita dramatúrgica, numa reflexão que cria um efeito de metalinguagem, e as personagens discutem sobre suas próprias existências. Ao final do belo espetáculo, o cenário se abre e, por baixo da plataforma negra, surge um campo de trigo. Me remeteu imediatamente ao cenário de um espetáculo de Eugenio Barba, que eu assisti há muito tempo. Talvez tenha sido uma influência. Mas aqui, se não me falha a memória, o efeito funciona mais. Que venha o próximo.
O trânsito da cidade. A correria que foi entre uma peça e outra poderia ter sido bem mais tranquila se Salvador tivesse uma engenharia de tráfego decente e a Transalvador realmente ajudasse o trânsito. O trajeto entre o Teatro Gamboa Nova e o Goethe Institut estava totalmente travado por causa de um show de axé na Concha Acústica do TCA. E o trajeto entre o Goethe Institut e o SESC/SENAC Pelourinho foi complicado porque resolvemos ir pelo Comércio e, justamente naquele horário, as faculdades estavam dando saída e todos os ônibus faziam um caos no trânsito da região. Um horror. Estresse desnecessário. E é essa a cidade que pretende sediar alguns jogos da Copa do Mundo. É essa Salvador que, em pleno século 21, ainda não entendeu que ter apenas ônibus como meio de transporte de massa não funciona. Como diz o perfil @Salvadordadepre no Twitter: Salvador é uma cidade que ainda não se preparou para o século 18.
Escrito por Celso Jr. às 10h38
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