.:cadernos grampeados:.
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Estou sem inspiração alguma pra escrever por aqui. Alguém disse, certa vez, que a tarefa de escrever é 10% inspiração e 90% transpiração.

Acho que a minha transpiração tem sido voltada para outras tarefas. E nem pense em bobagem. Tenho gasto meu tempo e minha transpiração estudando um pouco, preparando aulas, preparando os ensaios e cuidando da vida.

Minha inspiração tem sido usada nisso também.

Então resolvi colocar algumas novidades aqui, só pra atualizar algum eventual leitor que ainda se digna a passar por estes cadernos.

a. O pai de Leo teve um infarto anteontem. Ele está bem. Foi atendido a tempo, no Hospital Espanhol e deve sair da semi-UTI ainda hoje. A não ser que tenha de ser submetido a uma cirurgia para colocar uma ponte de safena. O velho vinha sentindo uma "azia estranha" e umas dores no braço há quase uma semana. Estava tomando Dorflex e Pepsamar. Às vezes, eu acho que minha hipocondria é instinto de sobrevivência.

b. Vou para Aracaju neste fim-de-semana. Leo ia comigo, mas por causa da situação do pai, resolveu ficar. Eu vou descansar um pouco fora daqui. Aracaju é fofa e eu fico um pouco com Duda. E Duda ficará feliz em ter companhia.

c. Assim que voltar de Aracaju-city, inicio um tratamento de pele, para retirada de algumas manchas e sinais suspeitos no rosto e no pescoço. Além disso, o tratamento para controlar a queda de cabelos deverá ficar mais intenso. Estou cuidando da minha pele para, no verão que se aproxima, destruir tudo com excesso de sol e praia.

d. Comprei a caixa com a segunda temporada de Gilmore girls. Cada vez mais interessante. É Tchekhov com anfetaminas.

e. Ontem ministrei uma palestra sobre Samuel Beckett numa disciplina da pós-graduação em Letras. Foi muito interessante voltar lá e perceber a mudança de status com que fui recebido. A mudança de papel: de aluno para palestrante. Parece que foi boa a palestra, recebi comentários elogiosos até no orkut.

f. A montagem de Todos os que caem continua em bom ritmo. Estamos desvendando pequenos mistérios e desfazendo os nós do texto, descobrindo detalhes. Deus está nos detalhes.

 


Esse est percipi

 



Escrito por Celso Jr. às 11h54
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   NOTÍCIAS DO SENHOR GODOT.

Estou montando uma nova peça.

É um texto de Samuel Beckett chamado Todos os que caem, que foi escrito em 1957, e faz parte do mesmo período de produção de Fim de partida e Ato sem palavras.

A peça narra um trajeto de ida e de volta. Uma senhora gorda e doente de mais de 70 anos sai de sua casa num sábado para buscar o marido (80 anos, cego) na estação de trem. No caminho de ida, ela encontra algumas pessoas de sua cidade, que a ajudam a vencer a longa caminhada até a estação do trem, a tempo da chegada do expresso das 12:30.

Essas pessoas que ela vai encontrando travam diálogos recheados de duplos sentidos sexuais. Ao mesmo tempo, ela vai destilando seu discurso amargo, refletindo sobre sua incapacidade de ser feliz, tudo isso com um certo humor sombrio e muito cruel. Até que ela chega à estação do trem.

Mas o trem está atrasado. Pela primeira vez, pelo que se lembram, o trem atrasou.

No caminho de volta, acompanhada pelo marido, o tempo fica nublado e um temporal ameaça o passeio. Já numa outra atmosfera, sem o humor da trajetória de ida, ela vai ouvindo a longa narrativa do marido que tenta contar os motivos que levaram o trem a se atrasar tanto (15 minutos, num trajeto de meia hora)

O final surpreende. E encerra com uma sombria chave-de-ouro, o trajeto da velha senhora.

 

"O Senhor sustenta todos os que caem, e levanta todos os abatidos" 

Salmos, 145:14


O processo de encenação segue um método que eu tenho tido muito prazer e tem se mostrado eficiente para este tipo de montagem.

Numa fase inicial, eu faço uma espécie de workshop temático com os atores, ao mesmo tempo em que fazemos uma revisão da tradução do texto da peça.

Assim, ao mesmo tempo em que se ganha familiaridade com a estética a ser tratada no espetáculo, se adquire um conhecimento profundo do texto a ser montado. O ator deixa de ser uma mera marionete nas mãos do diretor e passa a ser mais uma cabeça pensante no processo de montagem.

Neste momento, acabamos a primeira revisão do texto e, durante este processo, fui realizando leituras que me auxiliaram na divisão de personagens entre os atores.

Amanhã, faremos a primeira leitura já com os atores definidos em seus papéis. A equipe técnica terá acesso ao texto revisado também. Preciso discutir detalhes relacionados à cenografia e ao figurino.

A peça começa a ganhar forma. Deixa de ser uma imagem cercada de névoa e ganha contornos mais bem definidos.

Assim, tudo vai ganhando forma. A estréia está marcada para meados de novembro. Ainda há tempo.



Escrito por Celso Jr. às 01h14
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   AS DESELEGÂNCIAS NO MEIO ACADÊMICO.

Uma senhora acadêmica me convidou para dar uma palestra. Eu aceitei imediatamente. Como as coisas ainda não estavam muito organizadas, ela ficou de entrar em contato mais tarde para oficializar o convite e me informar da data da palestra.

Pouco depois, ela me liga e confirma data e o local da tal palestra. E ainda me informa que, infelizmente, eu somente teria 10 minutos para falar.

Dez minutos? O que se pode falar em dez minutos? "Oi, meu nome é Fulano de Tal e eu estudei pra caramba sobre o assunto da palestra, durante os últimos 4 anos da minha vida, mas não vai dar pra falar muita coisa porque eu só tenho dez minutos. Bom, acabou meu tempo. E, então? Alguém tem alguma dúvida?"

Chamar alguém para falar durante dez minutos é deselegante. Mas tudo bem, eu faria uma presença.

Esta semana, saiu uma matéria no jornal sobre o evento para o qual ela havia me convidado. Estranhamente, meu nome não figurava entre os palestrantes. Eu imaginei: "Tudo bem, para uma palestra de dez minutos, nem se deram ao trabalho de citar meu nome."

Eis que a senhora me liga, muito cabreira, e pedindo mil desculpas, falando um monte de detalhes desinteressantes sobre o quanto estava sendo complicado pra ela organizar o evento (que o consulado tinha ameaçado ela, que ela tinha confiado a organização a uma pessoa incompetente que não fez nada enquanto ela estava viajando, que os planos para o pós-doutorado dela estavam sendo ameaçados por isso), e me informa que eu havia simplesmente sido limado do evento. Limado, cortado, excluído.

E nem teve a decência de assumir a sua responsabilidade na decisão. Disse que quem havia resolvido retirar meu nome da lista de palestrantes tinha sido o administrador do espaço onde está sendo realizado o evento.

O resultado disso tudo é a frustração e uma sensação de estar mais uma vez no meio de um fogo cruzado político do qual eu não participo, ou de um jogo cujas regras eu não conheço. Ou preciso conhecer, se quiser jogar.

E agora a frase de Miranda Priestley (personagem de O diabo veste Prada) não me sai da cabeça: "Os detalhes da sua incompetência não me interessam".

Sigo em frente. De algum modo, em frente.



Escrito por Celso Jr. às 09h10
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   COMIDA PARA QUEM PRECISA

Outro dia, amigos comentavam que eu dava importância demais à comida. Que eu usava estes cadernos para falar sobre o que eu havia cozinhado e comido.

Gosto de boa alimentação.

Gosto de cozinhar.

Prefiro os bons sabores.

Isso realmente tem tomado um bom espaço da minha vida.

E isso me deixa feliz.

Por falar nisso, há fotos grampeadas do jantar que fizemos outro dia aqui em casa. É de encher o olhos. E de dar água na boca.



Escrito por Celso Jr. às 00h33
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   O SILÊNCIO POSSÍVEL.

Não há motivo para alarme.

É apenas um momento em que as palavras parecem inúteis, humilhadas ou vazias demais para serem descarregadas aqui. Sob o risco de não fazerem nenhum sentido.

É como se eu estivesse lutando contra uma língua morta. Incapaz de expressar o que é necessário expressar.

Mas impelido a continuar mesmo assim.

Ineficiente. Incapaz. Desnecessário. Incompleto.

Para evitar o total desespero - no sentido de perda total de esperanças - opto pelo silêncio. Como quem vota em branco. Como quem passeia pela caatinga. Como quem observa as nuvens procurando alguma cor.

Nem as metáforas sobrevivem. Vivo de metonímias.

Luto contra uma língua morta.

O Rei está morto! Viva o Rei!


Espremido entre a exaustão da segunda semana de trabalho após o retorno da viagem e uma pequena indisposição física, meus dias não cabem descanso. O furúnculo não explodirá, será absorvido pelo organismo. Às vezes, eu tenho nojo do meu corpo.

No trabalho, mais uma vez - e sempre - mergulhar no universo tão conhecido de Beckett para tentar expressar algo que ainda não tenha sido dito. Ou trilhar mais uma vez a mesma velha estrada. Quem sabe?

Estou preparando a montagem de Todos os que caem, peça radiofônica escrita no mesmo ano de Fim de partida.

Estou me munindo de referências para a montagem: Schubert, Philip Glass, Salmo 145, Beckett mesmo.

Enquanto isso, sigo em frente.


O que está tocando: Philip Glass - Sinfonia nº8. Recentíssima aquisição. Presente virtual de S.



Escrito por Celso Jr. às 00h55
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   ...

Silêncio, por favor.

Escrito por Celso Jr. às 01h26
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