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O ESTRANHO MUNDO DA CULTURA CONTEMPORÂNEA (ou tudo que nele pode caber)
Semana passada houve o ENECULT. Um grande encontro de acadêmicos que pesquisam coisas relacionadas à cultura. Várias palestras, mesas redondas, debates. Eu propus - junto com alguns amigos - uma mesa sobre aspectos da "baianidade" como identidade e de que modo isso é (e vem sendo) explorado e apresentado na TV e no teatro. Minha pergunta é: o teatro atual baiano dá conta de representar o homem baiano atual? Outra pergunta: de que modo a televisão contribuiu para a construção dessa "bolha-de-sabão" chamada baianidade? Não creio que chegamos a responder totalmente a qualquer dessas perguntas. Mas o debate foi interessante. Principalmente no que diz respeito aos negros, aos homens e mulheres de uma classe-média baiana que rara e dificilmente se vê refletido na tela da TV ou no palco. Nosso debate acabou me fazendo elaborar uma outra pergunta: o que é "baianidade"? E ainda: se isso existe, o que seria a "cearensidade" ou o que é a (só pra ser bem atual, na minha vida) "sergipanidade"? Que características são essas que estão associadas de modo tão grudado aos habitantes de Salvador? Mais uma vez, não chegamos à conclusão. Mas os ouvintes da nossa mesa puderam explicitar suas incertezas e expor seu espanto diante de tantas coisas. Outra coisa me vem à mente. Quando eu penso em cultura, eu penso em arte, certo? Errado. Diante das palestras e mesas e debates que ocorreram nesses três dias de ENECULT, percebo que cultura não tem muito a ver com arte. E, se tem, é apenas em um número bastante reduzido de pensadores. Fiz uma pesquisa bem safada na publicação final do ENECULT e descobri muito pouco se discutiu sobre teatro (apenas duas mesas), nada de dança, nada de pintura, escultura. A música esteve presente, com destaque até. Com direito a aula-concerto de Wisnik e tudo. Talvez eu seja um saudosista. Talvez eu esteja sentindo falta do tempo em que cultura e arte eram irmãs siamesas. Se foram um dia, estão separadas cirurgicamente. E a maior prova disso é a política cultural das nossas secretarias de cultura. O secretário estadual de cultura de Sergipe caiu, foi substituido pela até-então secretária estadual de Comunicação. Ele: antropólogo. Ela: coordenadora de eventos. A cultura de Sergipe está nas mãos de uma organizadora de eventos. Ao que parece, as festas de São João serão boas em Aracaju. Nem sei se eu preferia o antropólogo (que, segundo dizem, caiu em depressão depois da oneração) (talvez o fim do salário de R$ 12 mil tenha sido uma das causas da tristeza do homem) (eu ficaria triste) (chega de parêntesis, coisa chata) Não sei direito o que é cultura. Acho que sei o que é arte. Semana que vem vou assistir ao espetáculo do grupo Pilobolus. Será que farei as pazes com a dança contemporânea? É noite e faz frio em Aracaju.
Escrito por Celso Jr. às 00h58
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A NOITE DE ERÊNDIRA
Um vento sobrenatural soprou sobre a cidade a noite inteira. Uivos pela casa. Janelas e portas batendo. Incessante. Incansável. Tive uma noite horrível, sem conseguir dormir direito. Imaginando que algo terrível pudesse acontecer a qualquer momento. Não deixei nenhuma vela acesa perto de cortinas. Nenhum risco de incêndio. Nem há cortinas para serem queimadas. Nem velas. Mas a noite inteira escutei os uivos do vento pelas frestas. Imaginei que a manhã trouxesse um pouco de alívio, mas não. O vento ainda sopra com força pelos céus da cidade. Temerário, ameaçador, áugure de tempestades. Ontem à noite, antes de vir para casa, passei no supermercado. Um aviso: devido às chuvas recentes, algumas hortaliças deixaram de ser vendidas. Não há hortaliças devido às chuvas. Tudo alagado. Que hortaliça suporta tanta chuva? Hoje pela manhã cedinho, um carro passa com um som altíssimo, tocando pagode (ou arrocha, não sei direito diferenciar). Tão alto que dispara o alarme dos carros estacionados nas ruas. Aracaju é uma cidade de ruídos. Vigilantes assoviam a noite inteira. Os carros buzinam a cada esquina. ouve-se pagode (ou arrocha) em alto volume. Não há espaço para o silêncio.
Escrito por Celso Jr. às 08h35
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NUVENS CINZAS
saí de casa às 4:48, três minutos depois do horário marcado com o táxi. Paguei doze reais e cinquenta centavos para chegar à rodoviária. Parado no sinal vermelho, notei que o dia surgia timidamente através das nuvens pesadas e cinzas no céu (céu ainda tem acento?). Só pensava na pizza que eu iria comer no outro extremo daquele dia, do dia. Do dia que nem tinha começado. Fim do dia anterior. Dormir perto da meia-noite. Descansar pra enfrentar a estrada dentro do ônibus gelado (por que o ar-condicionado dentro do ônibus é tão forte? tão frio?). Estou no ônibus. Penso no relógio despertando pouco tempo antes de o taxi chegar. Tenho pouco tempo. Em quinze minutos, ou menos, tomar banho, me vestir, comer alguma coisa rápida, iogurte com aveia. Lembro da combinação do sabor ácido do iogurte com a textura da aveia na boca. Quando o interfone tocou, eu estava no meio do pote de iogurte. Pelado. Saí do banho quente direto pra geladeira. Enquanto eu comia as colheradas de iogurte, olhava a cidade ainda de noite. Nesse momento, nada parecia amanhecer, só o frio da madrugada. Vi o taxi virando a esquina. Pelado, com aveia na boca. Menos de um minuto depois, o interfone toca. Engulo o resto de iogurte com aveia. Cheiro de cigarro dentro do taxi. O dia quase nasceu. E eu parado dentro do taxi, sentindo o cheiro do cigarro, olhando as nuvens cinzas e
Escrito por Celso Jr. às 22h43
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AGORA QUE IDADE TEM? (Fernando Pessoa)
Ontem seria aniversário de meu pai, se ele estivesse vivo. Meu pai faria 66 anos ontem. Mas ele morreu há alguns anos. Há relatos nestes cadernos de todo o processo da doença, internamento, doença e morte. Estão nos escritos entre maio e junho de 2004. Meu pai esteve presente no meu aniversário de 36 anos. Depois não esteve mais. Hoje eu tenho 41 anos. E continuo envelhecendo. Tenho hoje a idade que minha mãe tinha quando ela morreu. Minha mãe morreu aos 41 anos. Tão jovem que jovem era! Chegarei à idade que meu pai tinha quando morreu? Ele morreu aos 61 anos de idade. Tenho 20 anos pela frente, para ter a idade que ele tinha quando morreu. Ontem lembrei de meu pai. Ontem falei dele. Ontem lembrei que ele faria 66 anos. Agora que idade tem? Rezo por ele.
Escrito por Celso Jr. às 14h54
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BOM DE CAMA
Já tenho cama. Acabei de montar. Aproveitei para colocar os lençois novos que eu adquiri especialmente para a casa de Aracaju. Cor-de-rosa-choque. Tava na promoção. E ficou lindo. Não ficou muito com cara de casa de menino, mas tudo bem. Tá lindo. E é uma cama de verdade. Colchão de molas. Lembrei de quando eu recebi da minha turma de faculdade o título de "Melhor de cama" da turma. Antes que as cabeças dos leitores destes cadernos comecem a imaginar orgias, eu explico. Minha turma era bem pequena, éramos pouco mais que meia dúzia de alunos. Num fim-de-semana prolongado, resolvemos passar os dias de folga todos juntos, na casa de praia de uma colega, na Ilha de Itaparica. Fizemos compras de comidas e bebidas e rumamos para lá. A casa era pequena, havia apenas dois quartos, com camas de casal. E na sala, uns sofás de alvenaria que se transformavam magicamente em camas de solteiro. Logo que eu cheguei na casa, tomei posse de um lado de uma das camas de casal de um dos quartos. O outro lado da cama foi ocupado cada noite por um colega ou uma colega diferente, que se revezavam para dormir. E eu dormi muito. E quieto. E quase sem me mmexer durante todas as noites. Eu devia estar cansado ou coisa assim. Deste modo, praticamente todos os colegas dividiram a cama comigo em algum momento. No final do feriado, eu fui eleito o "Melhor de cama" da turma, porque dormia sem incomodar ninguém. Com minha nova cama box, com colchão de molas, voltarei a ser o bom de cama de sempre. Pra dormir muito.
Escrito por Celso Jr. às 10h46
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A CENA PERNAMBUCANA EM SERGIPE E PIXINGUINHA DE NITERÓI
Os espetáculos pernambucanos estão sendo apresentados em Aracaju e algumas cidades do interior. Ontem, assisti a um espetáculo chamado Corra! São três partes, em cada uma, histórias envolvendo vários personagens (interpretados por apenas 4 atores) se entrelaçam. Confesso que fiquei confuso em alguns momentos, sem saber direito quem era quem e, muitas vezes, as vozes ficavam incompreensíveis. Mas houve momentos deliciosamente interessantes, como a sequência inteira de bate-papos no MSN. Muito engraçado e muito bacana. Hoje, o programa foi diferente. Voltei ao Teatro Tobias Barreto para assistir a um espetáculo do Balé da Cidade de Niterói, que faz parte de um projeto do SESC, de circulação de espetáculos. A coreografia trazia movimentos de dança moderna e nuances de dança contemporânea (na utilização de capoeira, por exemplo), em coreografias interessantes, acompanhadas pela música de Pixinguinha, em versões instrumentais. Há um duo, ao som de um trompete e um piano que é muito lindo, arrepiante e belo. Os bailarinos foram vistos depois na night de Aracaju. Chove torrencialmente há 24 horas. Dilúvio sergipano.
p.s. A cama não foi entregue. Dormi de sexta pra sábado sobre o colchãozinho estreito de camping. Minha coluna reclamou. E fez frio. Hoje à tarde, apesar do dilúvio que desbava sobre a cidade, comprei um colchão de casal. A cama foi prometida para a próxima sexta-feira. Conselho de amigo: evitem as Lojas Maia. Eles não cumprem os prazos de entrega dos produtos. Pelo menos, aqui em Aracaju-city. p.s.2. Almocei no restaurante Primi Piati, a partir da sugestão de Raimundo M. Leão. Delícia, delícia, delícia. Virei freguês.
Escrito por Celso Jr. às 01h53
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A LIÇÃO DA CAMA INEXISTENTE
Comprei uma cama nas Lojas Maia. Que arrependimento. O prazo de entrega era ontem. Hoje eu liguei para saber por que não foi entregue. O vendedor me informou que meu pedido foi faturado, mas - por qualquer motivo difícil de compreender - não foi incluido no sistema e não veio nas entregas desta semana. A previsão para a entrega da cama passou a ser na quarta-feira da semana que vem. Como quarta-feira eu não estou em Aracaju, a previsão de entrega é para a próxima sexta-feira. Que desorganização das Lojas Maia! Eu pedi para falar com um gerente por telefone, o vendedor me disse que os gerentes estavam muito ocupados hoje, porque a loja estava com muito movimento. Eu falei que iria lá pessoalmente e, depois do escândalo que eu faria, com certeza a loja ficaria com menos clientes. Ainda não sei se quero fazer isso. De qualquer modo, preciso sair agora pra comprar um colchão-emergência, para não ter que dormir no colchãozinho de camping péssimo que eu adquiri outro dia (outro arrependimento) Ainda quero assistir a Star Trek na sessão das 12h30min.
Escrito por Celso Jr. às 10h25
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AVENTURAS SERGIPENSES EM BUSCA DA GELADEIRA IDEAL
Eu estava hoje, antes das 8 da manhã, na rua, para dar continuidade à minha pesquisa intitulada "Qual loja oferece as melhores condições de compra de uma geladeira". Comecei no domingo. O método é simples. Escolhi um modelo da minha preferência. Uma Consul, frost free, duplex, de 350 litros. Escolhido o modelo, procedi a uma detalhada busca na internet. Anotados os preços, condições de pagamento e prazos de entrega, fui, com meu caderninho, a campo, para fazer uma pesquisa. No centro de Aracaju, já na segunda-feira, fui à Insinuante, às Lojas Maia, à Ricardo Eletro, Laser, várias menores. Anotando tudo, com cuidado de incluir o nome de cada vendedor ao lado das informações. Encerrada a pesquisa nos grandes e pequenos magazines, hoje, terça-feira, me dirigi aos super (e hiper) mercados. Extra, Bom Preço e, finalmente, GBarbosa. Às 9h 15min, encerrei minha pesquisa, depois de comprar em vááárias prestações a geladeira que eu queria, no GBarbosa, com o vendedor chamado Julio César (a César o que é de César, abafe...). Ao que parece, na sexta-feira, minha geladeira estará sendo entregue aqui, no Serenidade. Aproveitei a ida ao GBarbosa e adquiri um monte de outras coisinhas. Escada dobrável de três degraus, lâmpadas, cestos de lixo, papel higiênico, um espelho. Aos pouquinhos, o apartamento vai ganhando uma cara de casa. Assim, me sinto em casa. Assim, as idas e vindas se tornam menos cansativas.
p.s. Na mesma sexta-feira, a cama box será entregue. Em algum momento, será adquirido um fogão. Aguardem pesquisa.
Escrito por Celso Jr. às 20h36
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CENA PERNAMBUCANA NA BAHIA - ANGU DE SANGUE
O coletivo Angu de Teatro trouxe o espetáculo Angu de sangue, que coloca em cena dez contos do escritor pernambucano Marcelino Freire. Visualmente marcado por tons fortes, as dez cenas vão se desenrolando com densidade, um pouco de humor e pitadas de acidez. Há algumas cenas melhores que outras. Alguns atores se saem melhor em determinado momento que outro. Mas no geral, o painel urbano de violência e ressecamento das vidas da cidade. Um bom espetáculo, que abole o dramático e opta por colocar o prosaico em cena, sem se preocupar com adaptações. Bonito, forte, denso.
Escrito por Celso Jr. às 20h48
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CENA PERNAMBUCANA NA BAHIA - CAETANA
Caetana é um espetáculo dirigido por Moncho Rodrigues, um conhecido diretor pernambucano. Em versos rimados, a história da rezadeira acostumada a encomendar os mortos que precisa lidar com a sua própria morte. Apenas duas atrizes em cena. A talentosíssima Lívia Falcão domina a cena. Sustentada por uma inteligente construção clown e com ares "nordestinos", a peça transpira elementos contemporâneos, desde a exploração do espaço até a utilização de temas arquetípicos na intriga e na encenação. Fiquei surpreso com a forte influência que Caetana deve ter tido na criação de otura peça. Lembrei de As centenárias, de Aderbal Freire Filho, com Marieta Severo e Andréa Beltrão, cuja temática e elementos de encenação faz com que ela se aproxime bastante desta Caetana. Coincidência? Ou uma leve apropriação de um criador por outro... O fato é que Caetana foi criada antes. Um espetáculo que apresenta grande complexidade de elementos e, ao mesmo tempo, possui uma qualidade impressionante de comunicação com o público. O festival de teatro brasileiro que, nesta edição, apresenta peças pernambucanas na Bahia e Sergipe, começou bem. Caetana é um belo espetáculo.
Escrito por Celso Jr. às 13h13
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